sábado, 02 - 09 - 2017 | Escrito por Paulo Pacini Transporte e Trânsito

Tecnologia do VLT Carioca

VLT_Maua

A introdução do novo sistema de VLTs no centro do Rio é um acontecimento da maior importância, não só por mostrar a viabilidade desse meio de transporte como solução prática e de alta qualidade em um centro urbano de primeira grandeza, como é o caso de nossa cidade, mas também como instrumento didático junto à população, a qual vivenciará em seu dia-a-dia uma nova opção, infinitamente superior àquilo que costuma experimentar há muito tempo.

No início dos anos 60, entre 62 e 63, a maior parte dos bondes do Rio desapareceu, restando sómente alguns sistemas isolados, como o de Santa Teresa, que bem ou mal ainda existe, o da Ilha do Governador e o de Campo Grande, por alguns anos a mais. No momento de sua extinção, os bondes ainda eram responsáveis por mais de 60% das viagens feitas na cidade, o que pode se compreender se levarmos em conta a amplitude da rede existente e também o fato de que o bonde é considerado um meio de transporte de capacidade média, principalmente pelo uso de reboques, que podem ampliar em muito sua capacidade.

bonde_94B

O bonde, fiel servidor por mais de um século e espinha dorsal do

transporte  carioca até o final , no início dos anos 60.

Esse sistema, que desapareceu por conta de uma série de fatores, foi substituído por uma das piores opções, que são os ônibus movidos a motores de combustão interna. Esses veículos têm baixa capacidade de transporte, e portanto foi necessário empregá-los em número muito mais elevado para cobrir a demanda antes atendida pelos bondes. O resultado é conhecido — e sofrido — por todos há mais de 50 anos: transporte de péssima qualidade, longos tempos de viagem, poluição, barulho, veículos frequentemente conduzidos por profissionais da pior espécie, etc.

Nesse sentido, o VLT pode se tornar uma excelente opção para os deslocamentos no Centro do Rio, ligando pontos importantes como a Rodoviária, o Aeroporto Santos-Dumont, as Barcas e a Central,e também locais antigos que até então não se encontravam plenamente integrados ao Centro, como a Gamboa e também a região do porto, que vai se transformando no mais novo bairro da cidade.

IMG_20151019_123525514

O VLT, o novo bonde, na Praça Mauá: finalmente a modernidade chega ao Rio, cidade que ainda sofre com um sistema de transporte baseado em ônibus. (foto Paulo Pacini)

Considerações de ordem estética de e de segurança determinaram a opção por um sistema de alimentação das composições que não usa rede aérea —  a catenária —  e que , ao invés disso, emprega um trilho central, que já pode ser visto em vários trechos das linhas. Esse sistema, desenvolvido na França pela empresa Alstom, é conhecido como APS – Alimentation Par le Sol, ou seja, alimentação pelo solo. Essa tecnologia está sendo usada em cidades como Bordeaux, Angers, Reims, Orléans, Tours (França), Dubai (Emirados Árabes) e também sendo instalado em Cuenca, no Equador. Em que esse sistema difere dos mais comuns?

A alimentação dos bondes por trilho central não é um fato novo. No passado, cidades como Nova York, Washington, Londres e Paris tiveram bondes que usavam trilho central: uma haste penetrava em uma fenda no meio da pista onde corria um cabo energizado, e a força era coletada dessa forma. O funcionamento era problemático, pois, como pode se imaginar a água era sempre uma ameaça que poderia comprometer o funcionamento. Além disso, era um sistema de alto risco, pois o cabo permanentemente energizado poderia fácilmente eletrocutar alguém que nele encostasse acidentalmente.

Huff

Bondes de Nova York em 1949 utilizando alimentação por trilho central. Esses mesmos veículos foram posteriormente adquiridos pela cidade de São Paulo, sendo modificados para utilizar captação de energia por alavanca. Eram conhecidos como “Centex”. (foto cortesia Allen Morrison)

A criação do sistema APS teve como objetivo prover um sistema de alimentação por trilho central sem os inconvenientes do passado, oferecendo uma opção a mais para centro urbanos que desejem implementar sua rede de bondes sem o uso da catenária. Quais foram as respostas que a tecnologia moderna trouxe para as deficiências dos sistemas de trilho central do passado?

Em primeiro lugar, e mais importante, os trilhos não são permanentemente energizados. A eletrônica permitiu que se concebesse uma forma de alimentação mais segura, sem a necessidade de se utilizar cabos em caneletas. O sistema funciona da seguinte forma: o trilho central, que possui uma base de material isolante, tem em seu topo seções de metal, condutivas, separadas a intervalos regulares, por seções não-condutivas. Na parte central da composição (bonde) existem sapatas para a coleta da energia alimentadora. Ao passar por uma seção condutiva, as sapatas emitem um sinal codificado de baixa intensidade, que é captado por um circuito eletrônico, o qual então energiza o segmento de trilho com corrente contínua de 750 volts. Após a passagem das sapatas, o sinal é interrompido e o segmento que forneceu a corrente é automáticamente aterrado (0 volts).

systra_2012

Sistema de alimentação inteligente do APS: a energia só é comutada quando da

passagem do veículos, ficando os trilhos com potencial zero o resto do tempo.

(Imagem: Systra 2012)

A alimentação é feita de forma distribuída, ou seja, ao invés de sómente alguns pontos fornecendo energia para toda a rede, como é o caso com as catenárias, a modalidade em questão é alimentada por uma multiplicidade de caixas de força, colocadas a intervalos regulares e enterradas sob a linha.

IMG_20151010_113701059_HDR

Detalhe de trilhos APS na Avenida Rio Branco aguardando a montagem. Esta nova geração do equipamento é resultado de mais de dez anos de experiência em várias cidades. (foto: Paulo Pacini)

Como se vê, o sistema APS é fruto da moderna tecnologia, e tem estado em funcionamento por mais de dez anos em várias cidades, citadas acima. Seu sucesso entre nós, porém, dependerá de sua futura manutenção, pois sua sofisticação requer cuidados, como aliás em qualquer outro campo que empregue equipamento sofisticado. E manutenção em nosso caso, como todos sabem, significa vontade política, pois em caso contrário o sistema de VLT do centro do Rio se tornará mais uma excelente solução que será perdida e sucateada, como já se viu acontecer inúmeras vezes. Vamos torcer para que as próximas administrações se dediquem a preservar e incrementar essa excelente solução para que ela se torne parte permanente do patrimônio público carioca.

2 comments on “Tecnologia do VLT Carioca

  • Muito bacana os esclarecimentos. Fui ao Rio recentemente e fiquei muito curioso em saber como os trens eram alimentados. Eu percebi que os trilhos tinham partes condutivas e imaginei que ficavam energizados constantemente mas isso seria muito arriscado. Foi uma jogada de mestre dos engenheiros da Asltom fazer um sistema que se comuta de forma inteligente fazendo com que tenha-se energia somente quando o trem está sobre os contatos, brilhante ideia. Parabens aos idealizadores do projeto.

    Reply
    • É verdade, Alex, o sistema APS é bastante moderno e também evita o furto de cabos de cobre, como acontece frequentemente com os trens de subúrbio. Precisa de uma boa manutenção, contudo.

      Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>