sexta-feira, 01 - 09 - 2017 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

Rua Senador Dantas

Rua-Senador-Dantas

No começo, havia a lagoa do Boqueirão, com suas águas estagnadas e cheias de mosquitos, no local onde, no final do século XVIII, seria construído o Passeio Público, primeiro parque de lazer da cidade que, bem ou mal, sobrevive até hoje. Ao redor, uns poucos e pobres casebres, pois ninguém ali queria morar, na verdade só se passando para ir à zona sul, pois era uma das duas opções, sendo a outra o caminho da Ajuda ao Desterro (Evaristo da Veiga), para pegar a seguir a rua das Mangueiras, alcançar a Lapa e seguir adiante.

Tudo mudaria a partir de 1745, com a construção do Convento da Ajuda, inaugurado 5 anos depois, que abrangia toda a área da atual Cinelândia. O convento foi a realização do desejo de uma viúva chamada Barbalho, que no século anterior desejou recolher-se com suas duas filhas, não existindo contudo nenhuma instituição do gênero. Ela se ofereceu para construí-lo, mas o processo demorou muito, e a autorização foi concedida sómente em 1705. A viúva, portanto, já havia falecido há muito quando foi inaugurado.

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Rua Senador Dantas, aberta à força em 1886 na antiga horta do Convento da Ajuda

As freiras da Ajuda ficaram conhecidas como exímias doceiras, recebendo grandes encomendas quando dos muitos festejos do tempo. O outro lado do convento, menos alegre, é que era o local preferido para o qual filhas desobedientes eram mandadas, principalmente as que recusavam o noivo escolhido, podendo ficar para sempre lá trancadas. Esposas que causassem problemas e incomodassem os maridos também poderiam seguir o mesmo caminho.

A esses dois aspectos conhecidos do convento soma-se outro, que foi a defesa acirrada de seus direitos, e as longas demandas judiciais nas quais a instituição envolveu-se ao longo da história, principalmente em questões de terras. O prédio se estendia longitudinalmente desde a esquina onde é o cinema Odeon até a atual Evaristo da Veiga, e lateralmente seu terreno ia até pelo menos a metade do caminho até a rua das Marrecas. Este trecho compreendia terras disputadas aos herdeiros de Antônio Caminha, o Ermitão da Glória, dando a justiça ganho de causa às religiosas.

No século XIX, principalmente durante o segundo Império, o desenvolvimento material se acelerou, com diversas inovações, inclusive na área do transporte. Até meados do século, os principais veículos eram ônibus de tração animal e gôndolas, pequenos ônibus com capacidade para 9 pessoas. Tal como a maioria ônibus atuais, eram desconfortáveis por conta dos muitos solavancos causados pelo pavimento irregular (em vez da atual estupidez do motorista), ainda de terra em muitos trechos. Tudo mudou com a chegada dos bondes, que, apesar de serem puxados por burros ou cavalos, ofereciam um conforto sem precedentes, pois rolavam suavemente sobre trilhos. Pode não parecer muito, mas para a época fez uma grande diferença.

À primeira linha, de 1859, ligando o Centro à Tijuca, que não durou muito, sucedeu-se, em 1868, o primeiro serviço verdadeiramente regular. Em 9 de outubro desse ano começavam a circular os bondes da Botanical Garden Rail Road Company, empresa de capital estrangeiro com sede nos Estados Unidos. O serviço iniciou com os carros partindo da esquina das ruas do Ouvidor com Gonçalves Dias, e indo até o Largo do Machado. O grande sucesso fez com que fossem criadas várias companhias a seguir, construindo-se aos poucos a maior rede de transporte do país.

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Tabuleiro da Baiana, terminal dos bondes para a Zona Sul, que passavam a seguir
pela rua Senador Dantas. Foi construído em 1937. Ao fundo, o Morro de Santo
Antônio, e à esquerda a rua.

O crescimento levou o deslocamento do terminal das linhas da Botanical Garden (futura Jardim Botânico) para o Largo da Carioca, onde havia um loop pelo qual os bondes retornavam para a zona Sul. O caminho a seguir passava pela rua da Guarda Velha (13 de maio) Ajuda, Passeio, Lapa e assim por diante. Nos anos seguintes, o movimento intenso tornava cada vez mais difícil a passagem pela rua da Guarda Velha, único caminho adiante. Veículos parados obstruíam o tráfego, e uma carroça com roda quebrada podia significar horas de atraso, como retratado no conto de Machado de Assis A Cartomante, onde Camilo, o adúltero, aproveita o engarrafamento para consultar a cartomante, na mesma rua.

A situação tornava-se cada vez mais aguda, o que acabou levando, em 1886, um grupo popular a derrubar à força o muro do convento próximo à rua dos Barbonos,  abrir e cordear uma rua até o Passeio, através da horta do convento da Ajuda. As freiras protestaram, mas não puderam evitar. Foi dado o nome de Senador Dantas à nova via, em homenagem a Manuel Pinto de Sousa Dantas, que propôs ao congresso a Lei dos Sexagenários em 1884, libertando todos escravos com mais de sessenta anos.

O novo caminho passou a ser utilizado pelos bondes até seu fim, no começo dos anos 60, e novas construções foram aos poucos povoando a rua. Mas o episódio marcou todos ligados ao convento, e foi certamente um dos fatores que levou à decisão de vendê-lo tempos depois, em 1911, pois a abertura da Av. Rio Branco terminou por acuar pelos dois lados a vidas das religiosas. O desaparecimento do convento, vítima dos novos tempos, foi uma grande perda para o patrimônio, dado o valor histórico da antiga construção de 1750.

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