quarta-feira, 04 - 07 - 2012 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

Razão Irracional

Razão-Irracional-id

O desenvolvimento gerado pela revolução industrial, desde o final do século XVIII, causou grandes transformações por toda parte, não sómente de tipo material como também em idéias e na própria visão do mundo. A expansão vertiginosa do conhecimento científico, principalmente em disciplinas básicas como física e química, e os feitos da engenharia com seus mecanismos multiplicando a força humana, pareciam apontar para um futuro róseo onde a ciência tudo resolveria, libertando o ser humano da escravidão do trabalho com máquinas fabulosas.

Essas concepções, que hoje reconhecemos ingênuas, e das quais, duzentos anos depois, podemos sorrir, avaliando a distância que as separa da dura realidade, estiveram contudo na base de vários movimentos sociais, inclusive aqui no Brasil, onde um representante desse tipo de tendência, o francês Augusto Comte, teria, com suas idéias, papel fundamental na criação da república brasileira.

templo_positivista_001  O belo e paradoxal Templo Positivista, na rua Benjamim Constant, na Glória

O positivismo, ao pregar a superioridade do conhecimento científico sobre todas outras formas de expressão, substituindo crenças religiosas e filosofia metafísica, desdobrou sua reflexão a outras áreas de conhecimento, como direito e política, as reinterpretando segundo seus cânones, criando condições, assim se pensava, para a construção de uma sociedade ideal, calcada nos únicos valores considerados verdadeiros, aqueles derivados da ciência.

A aplicação dessas idéias a uma sociedade, contudo, poderia não ser muito fácil, pois muitos elementos — mergulhados nas trevas da ignorância — poderiam não aceitar, e persistir em velhos e ultrapassados vícios democráticos, pondo tudo a perder. O corolário é que tal mudança só poderia ser feita de modo autoritário, com uma “elite esclarecida” impondo seu modelo a todos ou outros, para seu próprio bem, é claro. O progresso que a ciência poderia proporcionar só poderia nascer no império da ordem.

Não é por acaso que tal tipo de visão tocou ressoou favoravelmente entre os militares brasileiros do segundo Império, no século XIX, pois as idéias do positivismo de Comte se coadunavam com características básicas da formação militar, como o amor à ordem,  disciplina e  hierarquia. As novas concepções reforçaram convicções crescentes em favor da criação de uma república, um ambiente que se acreditava propício às idéias positivistas. Após a assinatura da Lei Áurea, em 1888, o movimento recebeu a adesão de muitos fazendeiros descontentes com a perda de seus escravos, os quais, movidos únicamente por interesses próprios, deram uma guinada de 180 graus em sua orientação política. Além disso, é claro, contava-se com os habituais intelectuais, a maioria de confeitaria, cuja ocupação quase única resumia-se em aguardar as notícias chegarem de Paris para saber o que pensar ou que opinião emitir. Essa foi a base que criou a república, que, apesar da solenidade e grandiosidade com se tenta revesti-la — verdade seja dita — foi só um golpe militar ao qual o povo assistiu atônito.

Nos primeiros anos dessa nova etapa o positivismo talvez tenha alcançado o zênite de seu prestígio, e algumas figuras de destaque do movimento resolveram construir um Templo Postivista, chamado por eles de Templo da Humanidade, dedicado à Igreja Positivista. Um momento, Igreja Positivista? Mas não foi o positivismo que decretou a inexistência do valor da religião, baseada em falsos pressupostos? Sim, mas agora em vez de se adorar um Deus, coloca-se em seu lugar a Humanidade, um conceito abstrato, e inventam-se rituais, símbolos, dias santos, sacramentos, etc. Pode tentar se explicar o quanto quiser, mas a criação de rituais religiosos por um grupo de indivíduos que prega a racionalidade absoluta parece no mínimo contraditória, ou é então a manifestação atávica de um impulso religioso que, apesar de todos os esforços, não pôde ser reprimido…

auguste_clotildeAugusto Comte e sua musa Clotilde de Vaux, imagem viva da Humanidade

Seja como for, as obras foram adiante, e em 1897 era inaugurada na rua Benjamim Constant, na Glória, Rio de Janeiro, o Templo da Humanidade, cuja fachada imita o Panthéon de Paris, no qual a humanidade é personificada pela imagem de Clotilde de Vaux, a musa de Augusto Comte… É monumento de grande importância, que merece ser visitado tanto pelo seu valor histórico quanto por ser uma das materializações mais exemplares das contradições do espírito humano. O templo no momento se encontra em reformas, ao que parece.

O ranço autoritário inerente ao nascimento republicano, inspirado pelo positivismo, iria ainda perdurar por muitas décadas, com várias insurreições, golpes e ditaduras, a última tendo terminado só em 1985. É provável que essa característica tenha tornado impossível, por quase um século, seguir-se uma ordem constitucional como em países desenvolvidos, e criado uma convicção duradoura de que só se pode mudar pelo autoritarismo, contra a qual se vem lutando nos últimos 30 anos, em um processo de consolidação democrática. Felizmente, as novas gerações estão construindo, através da experiência, uma nova página de nossa história republicana, cada vez mais distante de suas origens autoritárias.

Leia Também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>