quarta-feira, 30 - 08 - 2017 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Velho Mercado

O-Velho-Mercado

Durante milhares de anos, e ainda hoje em muitos países do mundo, o mercado continua sendo o centro da vida da maioria das cidades, onde se obtém todo tipo de gênero, desde alimentos até utensílios domésticos, roupa, e tudo o mais. Em vários centros africanos, as feiras ao ar livre em sua grande agitação transformam-se no turbilhão das trocas sociais, pelo menos para a maioria, como genuíno motor da economia, distante da tradicional corrupção das elites desse continente.

Esse acontecimento, o mercado, que pode ser diário, semanal ou com outra freqüência, também esteve presente por séculos no Rio de Janeiro, práticamente desde sua fundação, e mais particularmente a partir do momento em que a cidade começou a se expandir na várzea que ia desde o Castelo até São Bento, no início do século XVII.

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O velho mercado de Grandjean de Montigny na Praça XV no início do século passado.
No centro estão os pavilhões metálicos junto à rampa onde os barcos descarregavam.
O chafariz  à esquerda foi colocado no lugar do Monroe, na Cinelândia, também destruído.

Já em 1636, a Câmara havia delimitado uma área onde os pescadores poderiam vender suas mercadorias, entre a Praça XV e a atual Rua da Alfândega, no trecho chamado de Praia do Peixe. A região tornou-se o centro comercial, com a presença de vendedores com todo tipo de hortaliças, vindas por mar de vários pontos do litoral da baía de Guanabara. As pobres e sujas barracas continuaram abastecendo a cidade por quase dois séculos, com a única mudança ocorrendo durante o governo do vice-rei D. Luís de Vasconcellos, que aproveitou a reforma feita no Largo do Paço (Praça XV), com calçamento e mudança do chafariz, para melhorar a situação das barracas de venda de peixe, dando alguma organização ao caos reinante.

Para a época colonial, tal situação era completamente satisfatória, mas após a chegada da Côrte, em 1808, tornou-se cada vez mais incômoda. Após a Independência, e já no segundo Império, tornou-se intolerável. A presença dessa confusão e imundície no centro da capital era incompatível com as aspirações de progresso e auto-estima da sociedade da época. Algo precisava ser feito.

Em 1834, a Câmara resolve construir um novo mercado, e entrega o projeto aos cuidados de Grandjean de Montigny, arquiteto francês que veio ao Brasil na Missão Artística Francesa de 1816. A planta feita pelo mestre mostrava um edifício quadrangular de dois andares com quatro entradas, uma delas pelo Largo do Paço. O projeto original incluía dois andares, mas no estágio inicial foi feito sómente o térreo, a parte superior foi adiada. O piso do mercado era de lajes de pedra, e em seu centro havia um belo chafariz, formado por uma bacia circular e tendo uma parte central de onde a água saía pela boca de quatro golfinhos, se projetando a partir daí uma pirâmide encimada por um ouriço de bronze.

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O belo chafariz do mercado, em desenho do século XIX. Desapareceu junto com
o prédio.

Os dois trechos que davam para o Largo do Paço foram concluídos em 1835, e o restante em 1841. Em 1869, a Câmara decidiu arrendar o mercado a um particular, e dentre as obrigações deste constavam a construção de um segundo pavimento sobre os já existentes e mais dois pavilhões de metal entre o mercado e o mar, onde os barcos descarregavam os gêneros. Esses pavilhões sofreram incêndios duas vezes, em 1876 e 1899.

No final do século XIX, a Prefeitura optou por novo mercado na Praia D. Manuel, cuja inauguração aconteceu em 1907, causando, quatro anos depois, a demolição do mercado de Grandjean de Montigny. Hoje, todos dois mercados foram destruídos, sendo que nenhum deles conseguiu completar sequer 100 anos de existência. Duas obras históricamente importantes que poderiam ter sido conservadas e transformadas em centros comerciais e culturais modernos, ainda que conservando sua aparência original, tal como aconteceu em várias cidades européias, onde a valorização do patrimônio e do ambiente urbano é uma constante.

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