quinta-feira, 24 - 08 - 2017 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Santo de Clemente

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Não foi por vontade própria que Clemente José de Matos voltou mais uma vez à Europa em meados do século XVII, época em que tal viagem ainda representava grande risco. Havia retornado de Coimbra não fazia muito tempo, trazendo em sua bagagem o título de bacharel em Direito, e iniciado a carreira de advogado na cidade do Rio de Janeiro. Segundo dizem, envolveu-se em escândalos amorosos, e, perseguido pela Inquisição, voltou às pressas ao Velho Continente. Foi direto à Roma, se ajoelhou perante o Papa e conseguiu o perdão, sendo, além disso, ordenado padre, voltando  tempos depois ao Rio.

Homem de grande competência e conhecimento, o agora Padre Clemente de Matos também pertencia a família importante, pois seu avô, capitão Antônio Martins de Palma, havia construído a ermida de N.Sª da Candelária, origem do templo atual, e amealhou várias propriedades durante sua vida. O Padre Clemente herdou uma delas, uma enorme área que incluía quase todo o atual bairro de Botafogo, que foi chamada de Quinta de São Clemente.

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Um bonde da Cia. Ferro-Carril do Jardim Botânico passa pela tranquila
rua São Clemente de cem anos atrás. O nome da rua é a lembrança
de uma capela do século XVII que não mais existe

Lá foi construída em 1685 uma capela dedicada a São Clemente, existindo um caminho dentro da propriedade que ia desde a praia até ela. Falecendo o padre Clemente em 1702, a grande quinta foi sendo progressivamente dividida pela partilha entre herdeiros, além da venda a terceiros, como Pedro Fernandes Braga e o oleiro Francisco de Araújo Pereira, dono da chácara da Olaria, vendida posteriormente a Joaquim Marques Batista de Leão, o velho, cuja lembrança persiste no Largo dos Leões, no Humaitá. O terreno da chácara da Olaria se estendia até a lagoa Rodrigo de Freitas.

Em 1801, um dos últimos vice-reis do Brasil, D. Fernando José de Portugal, solicitou aos herdeiros que cedessem para uso público o caminho que dava acesso à capela, para que se pudesse ter uma comunicação mais direta com a Lagoa, bem melhor que aquela que acompanhava o rio Berquó, onde é a atual rua General Polidoro. Houve concordância, e assim nasceu a rua São Clemente.

Originalmente, o nome da rua abrangia a extensão que ia da praia até a Lagoa, mas a partir de 1868, o trecho do Largo dos Leões até o final passou a se chamar Rua do Humaitá, em lembrança do famoso episódio da Guerra do Paraguai; o trecho principal também sofreu as tradicionais ingerências políticas, tendo seu nome mudado para Raul Pompéia em 1895 e Rui Barbosa em 1917, para voltar à denominação original em 1922, que persiste até hoje.

Como a capela do padre Clemente, construída há quase 250 anos e reedificada em 1772, e que se localizava no antigo número 110, já desapareceu, o nome de São Clemente é a única ligação restante com uma história envolvendo paixões humanas e devoção religiosa no século XVII, que acabaria por definir a evolução do conhecido bairro de Botafogo.

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