quarta-feira, 07 - 03 - 2012 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Relógio da Glória

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Com a paisagem dominada pelo antigo e belo templo, o bairro da Glória tem longa história, estendendo-se até o início da colonização do Rio de Janeiro, quando os primeiros habitantes por ali começaram a passar, primeiro para obter água potável no rio Carioca, e depois para alcançar, por Botafogo, o engenho de cana da Lagoa, uma iniciativa do governador Antônio Salema que não prosperou.

O nome do bairro foi dado a partir da ermida de taipa dedicada a N.Sª da Glória, construída por Antônio Caminha durante o século XVII, no outeiro chamado anteriormente de Leripe, o qual foi um dos cenários do combate final, em 1567, entre portugueses e colonos franceses, que se estabeleceram na área anos antes. As histórias envolvendo a ermida forneceram material para o romance de José de Alencar “O Ermitão da Glória”, publicado em 1873, onde Caminha é retratado como um ermitão, o que na verdade se distancia dos fatos, pois este teve família e legou patrimônio aos descendentes. Apesar disso, foi realmente quem erigiu o primitivo templo, que floresceu e deu origem ao atual.

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Relógio da Glória, verdadeiro símbolo do bairro desde 1905

Com sua icônica igreja, a Glória se constituiu em verdadeiro portal para a zona sul da cidade com suas novas e pouco exploradas terras, pois, durante muito tempo, o único caminho por terra passava por onde é hoje a rua do Catete. Durante o século XIX, duas novas construções marcaram o bairro, o Mercado da Glória, de 1858, que não atingiu seu propósito e entrou em decadência, e a instalação da The Rio de Janeiro City Improvementes Company, conhecida como “City”, de 1864, primeiro sistema de esgotamento sanitário da cidade, em prédio ainda existente na praça do Russell pertencente à Seaerj.

No início do século passado, as reformas feitas na cidade durante a gestão do prefeito Pereira Passos também transformariam a Glória, que ainda possuía o antigo cais. Este desapareceria com um aterro, que, junto com a demolição do velho mercado, formaria uma nova praça. Além disso, foi reconstruído o paredão entre a rua da Glória e a rua à beira-mar ao lado do cais, e nele foram colocados os balaústres de metal retirados da Praça Tiradentes, que passou a ser aberta. A reforma do paredão foi complementada com a colocação de um relógio no alto de uma coluna de pedra.

De fabricação alemã e tendo quatro lados, sua história inclui um fato curioso, ligado ao desenvolvimento da própria cidade. Como nos relata Charles Dunlop, o relógio era movido a energia elétrica, mas essa ainda não era distribuída na Glória. Sua única fonte local eram os cabos elétricos dos bondes da Cia. Ferro-Carril do Jardim Botânico, a qual, para que a nova melhoria pudesse ser inaugurada, cederia energia com a ressalva que, em caso de pane do mesmo relógio, esta lhe seria cortada. Assim se fez, e ele pôde entrar em funcionamento já em 1905.

Desde então o relógio se tornou mais um ícone do bairro, colocando-se ao lado de outros mais antigos e destacados, como a própria igreja de N.Sª da Glória do Outeiro e o chafariz colonial. Sua imagem pode ser vista em incontáveis fotos, testemunhando a história do bairro. Como outras peças do patrimônio histórico, contudo, sofre os mesmos problemas crônicos de abandono e vandalismo, sendo necessária vigilância e cuidados contínuos para que monumentos como esse, verdadeiros símbolos da cidade, possam ser preservados em favor das gerações futuras.

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