quarta-feira, 19 - 07 - 2017 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Quartel do Campo

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A vida nas cidades trouxe enormes vantagens, sendo ela a expressão viva, em nível mais elevado, da natureza gregária do homem, cuja sobrevivência sempre dependeu da força e união do grupo. Segundo a arqueologia, uma das primeiras cidades conhecidas foi Jericó, na Palestina, cujas origens remontam a 9000 anos antes de Cristo. Lá foram descobertas dezenas de moradias em espaço limitado, comprovando sua densidade urbana. A proximidade possibilitava todo tipo de trocas, como hoje em dia, e também facilitava a defesa, seja contra inimigos ou animais, através da construção de muralhas defensivas, característica que perdurou até o século XIX.

Mas com ela também surgiam vários problemas, por nós bastante conhecidos. A densidade, uma das maiores vantagens, é contudo fonte de grande vulnerabilidade, especialmente no passado, pois amplificava os efeitos de um dos maiores flagelos à sociedade humana, que são os incêndios. A disposição de prédios lado a lado sem espaçamento tornou-se ameaça  em potencial, pois a propagação seqüencial do fogo tornava-se bastante provável, dependendo do posicionamento dos imóveis, seu material de construção, etc.

q_g_bombeiros_001Quartel central do Corpo de Bombeiros, construção notável e grande
 destaque no Campo de Santana desde 1908 

Se esse perigo continua pairando sobre todos, mesmo com modernos recursos, pode-se imaginar o que seria na época do Brasil imperial, quando a única coisa que se podia fazer era utilizar baldes, além de algumas bombas manuais, esforço gigantesco e geralmente inútil, com a extinção dos incêndios ocorrendo sozinha, pelo fim do material combustível. A revolução industrial, contudo, começava a transformar esse domínio, e as primeiras bombas d’água movidas a vapor multiplicariam a quantidade de líquido utilizado no combate ao fogo, serviço que no mundo inteiro passava por processo de organização e reestruturação.

No Rio de Janeiro, o imperador D.Pedro II cria em 1856 o Corpo Provisório de Bombeiros da Côrte, reunindo em uma só corporação diversos grupos de combate ao fogo espalhados em organismos do estado. O material da época compunha-se de bombas manuais, escadas, mangueiras, cordas e baldes de lona. Em 1865, chegava a primeira bomba a vapor, e anos depois eram importados novos carros-pipa, permitindo levar o combate a qualquer lugar, pois deve ser lembrado que não existia uma rede de distribuição de água como hoje conhecemos.

Em 1880 o Corpo de Bombeiros é militarizado, e é concedida ao Diretor-Geral a patente de Tenente-Coronel. Até então, a corporação não era considerada militar, em que pese estar como tal organizada e aquartelada. A sede do Corpo de Bombeiros da Côrte, e, depois da República, do Distrito Federal, localizava-se no Campo de Santana, no qual estavam vários prédios da administração governamental, como a Casa da Moeda, o Senado, o Museu Nacional, a Câmara Municipal e outros imóveis excepcionais do século XIX.

No intuito de prover a instituição com melhores instalações, fez-se uma reforma e ampliação de seu quartel, entre o Campo de Santana e a rua do Senado. Com a presença do presidente, Dr. Afonso Pena, e diversas autoridades, incluindo o coronel-comandante Sousa Aguiar, o prédio foi inaugurado em 23 de maio de 1908, com grande pompa. No novo quartel foi inclusive construída uma torre central para treinamento, de onde podia se admirar o panorama da cidade. O grande pátio central podia abrigar várias viaturas, além de constituir excelente área de movimentação.

Desde então, há mais de cem anos, o quartel central do Corpo de Bombeiros tornou-se um dos elementos mais destacados  do Campo de Santana, ilustrando, com sua presença, um dos mais importantes conjuntos de imóveis históricos da época do Rio de Janeiro Imperial.

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