quarta-feira, 02 - 08 - 2017 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Parc Royal

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Tempos atrás — não muito tempo — era quase impossível a uma pessoa nesse país comprar o que fosse do exterior. Tudo era proibido, bloqueado por interdições de toda ordem, na maioria das vezes para beneficiar os muitos protegidos associados da corrupção e ineficiência estatal, para os quais eram feitas leis e portarias que eliminavam qualquer competição, obrigando a população a consumir produtos inferiores e com preço absurdo. O exemplo mais conhecido é o do setor automobilístico, o qual, de 1974 a 1990, teve as importações “temporariamente suspensas”, sendo esse o jargão burocrático usado pelo governo para transformar o país no único em que multinacionais (VW,GM, Ford, etc) tinham reserva de mercado.

Esse tipo de fato, ainda presente em grande escala se comparado a outros países, reflete na verdade uma longa e ambígua relação do Brasil com o exterior, passando alternadamente por períodos de maior ou menor liberalização, a atitude não se resumindo a sua dimensão econômica, sendo mais um tipo de convicção profundamente enraizado na psiquê de gerações sucessivas de burocratas governamentais. É talvez o setor mais sujeito a arbitrariedades, com regras mudando ao sabor dos interesses.

É possível que esse tipo de postura esteja diretamente ligada ao nosso passado colonial, onde toda relação com o exterior era controlada pela metrópole portuguesa, e onde durante muito tempo proibia-se a entrada de estrangeiros, salvo em casos específicos. Os navios que aqui vinham só podiam ter como destino Portugal, e a coroa procurava bloquear o acesso a tudo que não viesse de lá, mantendo a colônia no maior atraso possível, pensando assim melhor defender seus interesses.

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O magazine Parc Royal ao lado da igreja de São Francisco,  em um Largo
ainda distante do caos e imundície atuais

Esse esquema viraria de cabeça para baixo a partir de 1808, quando a côrte foi transplantada para o Rio de Janeiro. De uma hora para a outra, a cidade passou a ser a própria metrópole, para onde convergiam bens de toda parte do mundo, assim como autoridades e delegações estrangeiras de vários países. Com a abertura dos portos às nações amigas, em 28 de janeiro de 1808, a até então obscura colônia ligava-se ao mundo, o qual respondeu enviando um fluxo contínuo de mercadorias e pessoas, que começaram a definir o próprio país.

Essa lufada de ar fresco de proporções míticas geraria um sem-número de transformações, como por exemplo na construção de novos tipos de residência, amplas e ajardinadas, uma influência inglesa, à criação do setor hoteleiro, através do primeiro hotel decente, o Pharoux na praça XV, francês, o qual também introduziu a culinária sofisticada com seu restaurante, além da entrada de um número infinito de mercadorias européias, utensílios domésticos como móveis e outros, máquinas, além de bens culturais como livros, etc.

Como não poderia deixar de acontecer, uma das facetas da vida cotidiana mais afetada foi a moda, pois agora era imperioso, principalmente para a elite, seguir os padrões da côrte, que eram os da Europa. Os navios desembarcavam sem parar tecidos e outros implementos, os quais vinham acompanhados de uma multidão de alfaiates e modistas, chapeleiros, etc. Agora estar na moda era uma necessidade, e esse setor de atividade só fez prosperar, desde o tempo de D.João.

Seu pleno florescimento aconteceria durante a época de D.Pedro II, com a transformação da rua do Ouvidor em passarela da moda e na rua mais conhecida do Brasil, onde se podia comprar quase tudo que de melhor existia, desde que se tivesse dinheiro. E as opções eram muitas, como a famosa loja Notre-Dame de Paris, de 1848, a Torre Eiffel, de 1889, a Raunier, de 1854, e muitas outras. A expansão dessa atividade continuou com a República, e um dos estabelecimentos mais destacados ficava perto da Ouvidor, no Largo de São Francisco. Foi o magazine Parc Royal.

Fundado em 1875, na esquina do Largo com rua dos Andradas, era uma loja com grande movimento, e introduziu a novidade de venda a preço fixo, além de distribuir catálogos à freguesia, através dos quais podia se fazer encomendas que seriam enviadas de sua filial em Paris, sem problema algum. O magazine tornou-se o principal fornecedor de tudo que se refere ao vestuário na antiga capital.

O crescimento da loja levou à construção de uma nova instalação, em frente a seu antigo endereço e ao lado da igreja de São Francisco. O prédio foi inaugurado em 9 de março de 1911, continuando sua tradição como endereço da moda. Mas infelizmente não duraria para sempre. Após várias décadas de existência, em 9 de julho de 1943 o Parc Royal pegava fogo, em um dos maiores incêndios da história do centro do Rio. As chamas foram tão fortes que o prédio desabou do lado da rua Ramalho Ortigão, e a igreja ao lado teve vários de seus vitrais quebrados. Só resistiu por conta de sua forte construção colonial com paredes extremamente espessas.

O fim da famosa loja talvez prenunciasse o ocaso da região da rua do Ouvidor como lugar da moda e sofisticação, pois a seguir o Largo entraria em processo de decadência contínua ao ser transformado primeiro em terminal de ônibus, nos anos 60, e depois dos anos 80 em um infernal centro de comércio de rua ilegal, que a tudo suja além de atrapalhar a circulação. A Prefeitura completou o quadro ao retirar vários bloqueios à circulação que impediam uma maior degradação pelos veículos, sujando o local ainda mais e transformando-o em estacionamento de motos e carros.

Longe estão os dias do Parc Royal, verdadeiro símbolo de uma era em que ir ao centro do Rio era um prazer, ao invés da experiência desagradável de hoje em dia. Seria importante para a revalorização da imagem da cidade que toda essa área histórica fosse disciplinada e protegida, resgatando para o cidadão ruas e locais de passado tão histórico e destacado.

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