quarta-feira, 25 - 01 - 2012 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Museu Real

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A exuberância da natureza brasileira sempre causou profundo efeito em quem entra em contato com suas cenas grandiosas, mesmo que para muitos que moram em cidades isso só aconteça em viagens. O verde, as árvores, o céu azul, exercem efeito revigorante na alma, possibilitando uma pausa saudável ao cinza e à vida confusa dos centros urbanos com seus engarrafamentos, poluição e violência.

Se isso acontece hoje, quando a quase totalidade da mata atlântica já desapareceu, e os predadores avançam firmemente na destruição completa da Amazônia, muitas vezes com apoio governamental, imaginem o que  foi há trezentos anos, com quase tudo intocado e com limites que pareciam englobar a terra toda. À fascinação do primeiro momento, com a qual se negociava, seguia-se uma coexistência, na qual o cenário integrava-se inconscientemente, vindo para primeiro plano inevitáveis questões práticas e de interesse utilitário.

O encanto da paisagem natural, contudo, nunca deixou de comover o vice-rei Luís de Vasconcellos, que, estando em posição de poder, sentiu-se compelido a algo fazer a respeito. A racionalização de sua admiração materializou-se em projeto bastante palpável de história natural: criar um local que abrigasse coleções de animais típicos da terra, para incentivar o estudo da ornitologia. Acreditava que o conhecimento da natureza local favorecesse uma melhor exploração dos recursos da colônia, pelo menos foi essa a justificativa para a despesa. Para tal foi construído um prédio no Campo da Lampadosa, área pouco ocupada perto da futura Praça Tiradentes, ainda com vários alagados. O prédio, logo chamado de Casa dos Pássaros, ficava em frente à atual Av. Passos, onde está hoje um terreno baldio transformado em estacionamento.

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Museu Nacional, ex-Real, no Campo de Santana (gravura de Bertichem -1856)

Os encarregados tinham como missão aumentar a coleção com a caça de novos espécimes, sendo que muitos foram fácilmente obtidos abatendo-se aves que ficavam na lagoa da Pavuna, onde é o Largo de São Francisco. Com o tempo, reuniu-se acervo razoável, com centenas de exemplares. A Casa dos Pássaros, contudo, como tantos outros imóveis, foi desalojada com a chegada da côrte portuguesa em 1808. Suas coleções foram guardadas e o prédio utilizado como oficina de lapidação.

Sómente em 1818 as peças veriam a luz de novo, pois, de acordo com a iniciativa do ministro Tomás Antônio de Vila Nova Portugal, foram adquiridos os imóveis de João Rodrigues de Pereira de Almeida, no Campo de Santana, para a instalação do Museu Real. A nova casa dedicada à história natural passou a incluir coleções de minerais, além da parte zoológica. Com a Independência, a instituição foi prestigiada, pois José Bonifácio, ele mesmo mineralogista, lhe dedicou especial atenção. Foi estimulada a colaboração de estrangeiros como Langsdorff e Saint-Hilaire que, em suas viagens exploratórias, enviaram novos exemplares. Um fato curioso deu-se em 1822, quando o manto imperial de D.Pedro I foi feito com as penas dos tucanos do museu, que teve sua coleção assim desfalcada.

O prédio também abrigou duas instituições significativas histórica e culturalmente, a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, fundada em 1828, e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de 1838. Com D.Pedro II, ampliaram-se as áreas de estudo, sendo incluídos os campos de anatomia comparada, agricultura, artes mecânicas, numismática, dentre outros. Para o sempre crescente acervo a falta de espaço era uma constante, e, com o fim do Império, decidiu-se transferir o museu para a Quinta da Boa Vista em 1892, onde permanece até hoje.

Em 1907 mudou-se para o prédio o Arquivo Nacional, lá ficando até 1985, quando foi para a antiga Casa da Moeda, do outro lado da praça, reformada há poucos anos e uma das mais belas construções do local. O antigo museu está em restauração sob supervisão do Iphan, uma iniciativa elogiável que resgata mais uma peça valiosa daquele que é um dos mais belos conjuntos arquitetônicos históricos do Rio de Janeiro, situado no entorno do Campo de Santana.

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