quarta-feira, 06 - 06 - 2012 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Mosteiro de São Bento

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Há mais de quatrocentos anos, em 1589, chegavam ao Rio dois frades para se unir às fileiras de religiosos que aqui estavam em missão evangelizadora. Frei Pedro Ferraz e frei João Porcalho, contudo, eram os primeiros beneditinos na cidade, vindo somar a representação de sua ordem àquela dos jesuítas, presentes desde o início da colonização.

Sem muitas opções de hospedagem, pois a cidade havia sido criada há poucos anos, o governador Salvador Correia de Sá os encaminhou à ermida de N.Sª do Ó, que possuía um hospício anexo. A primitiva habitação situava-se onde é a atual igreja e convento do Carmo, com o mar quebrando a poucos metros, no meio da Av. Primeiro de Março. Os religiosos aceitaram de bom grado a oferta, mas ficariam por pouco tempo, pois receberam em doação uma grande área desmembrada da sesmaria pertencente a Manuel de Brito e seu filho, Diogo de Brito Lacerda. O terreno se estendia do atual Primeiro Distrito Naval até o Morro da Conceição, incluindo a Praça Mauá, e nele se encontrava um morro, chamado de Manuel de Brito, escolhido para a construção do mosteiro e igreja.

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Igreja de N.Sª de Monserrate, no Mosteiro de São Bento: patrimônio
secular preservado

No local já havia uma ermida, contudo, dedicada a N.Sª da Conceição, erigida por Aleixo Manuel e sua esposa, que foi doada aos beneditinos com a condição que estes realizassem os festejos da padroeira. Assim foi feito, e os dois frades se mudaram para o morro, que ficou conhecido como de São Bento. Outros companheiros se uniram aos pioneiros, logo a seguir. Alguns anos depois, contudo, em 1602, mudou-se a padroeira dos beneditinos de N.Sª da Conceição para de N.Sª de Monserrate, em gesto político, segundo Vieira Fazenda, para agradar o governador Francisco de Sousa, que era devoto da santa e que muito havia favorecido a ordem. N.Sª da Conceição iria para o morro em frente, que até hoje leva seu nome.

A antiga capela, porém, não atendia às necessidades da ordem, a qual havia crescido em importância, com seu patrimônio avolumado pelas doações de fiéis. Assim, decidiu-se por uma nova igreja, cuja obra iniciou em 1633. As pedras vieram do morro da Viúva, e foi concluída em 1642. O prédio é exatamente o mesmo de hoje, mas sua decoração interna, uma das mais ricas e artísticamente valiosas do Brasil, levaria bem mais de um século para se completar.

A igreja e mosteiro de São Bento foram parte integrante de todos episódios importantes da história carioca, especialmente durante o período colonial. Sofreu até mesmo ataques físicos, como o bombardeio feito pelo corsário francês Duguay-Trouin em 1711, que se apoderou da Ilha das Cobras e voltou seus canhões contra a bateria instalada no Morro de São Bento. O mosteiro, como toda cidade, acabou caindo nas mãos do invasor, e teve de pagar sua parte do resgate.

Figuras públicas de vulto freqüentaram os bancos de seu colégio, assim como grande número de profissionais, e a excelência de seu ensino, de fama secular, continua formando parte substancial da elite intelectual brasileira.

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A paz atemporal do claustro beneditino

A existência contínua por mais de quatro séculos do mosteiro de São Bento é uma dádiva cultural não só para a cidade do Rio de Janeiro, mas também para todo país, pois se trata de um monumento histórico e artístico de primeira ordem. Sua sobrevivência tornou-se possível pelo fato de que a Ordem teve força suficiente para se defender quer das investidas de vários governos, quer de especuladores, que trocariam sem pestanejar esse tesouro por dinheiro fácil e rápido. Em defesa do mosteiro certamente também se levantaram seus ex-alunos, muitos em posição de poder, para que este fosse conservado.

Muitas outras igrejas e ítens do patrimônio não tiveram essa sorte, e desapareceram para sempre, vítimas dos interesses velados ou ignorância dos governantes, ou nas mãos de aproveitadores. O mosteiro de São Bento mostra como poderia ter sido preservado e valorizado muito do que foi destruído, mantendo o legado da história da formação da cidade. A comparação entre o que foi mantido e o que se foi deve estar sempre presente nas mentes e corações daqueles que visitam São Bento, visita aliás obrigatória e imperdível, não só para turistas, mas para todo morador dessa cidade.

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