quarta-feira, 29 - 02 - 2012 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Ministério da Viação

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Uma das características mais comuns a ocorrer na paisagem urbana do Rio de Janeiro, desde o século passado, é a rapidez com que são feitas intervenções, substituindo obras relativamente recentes em iniciativas intempestivas, na maior parte das vezes não trazendo nada de benéfico para a população. A sombra do desaparecimento está sempre a pairar sobre maioria dos imóveis e logradouros, com exceção dos incluídos no tombamento, por ora protegidos.

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O edifício do Ministério da Viação e Obras Públicas, projeto dos arquitetos
Bosísio e Ballarini

A ação daqueles que, por motivos políticos ou pecuniários, atentam contra o que deveria ser considerado patrimônio coletivo — a paisagem urbana — é facilitada por uma atitude persistente, desvalorizando tudo que é antigo e equiparando-o a um lixo do passado que não fará falta alguma quando removido e substituído por algo “moderno”, supostamente melhor. É como se o espaço público compartilhasse a mesma lógica consumista do descarte contínuo, com uma substituição eterna de objetos percebidos como não detentores de nenhum valor intrínseco, e que por isso são jogados fora sem cerimônia. Esta postura e a decorrente indiferença coletiva facilitaram, no passado, empreitadas maliciosas ou simplesmente estúpidas, que levaram vários marcos importantes da cidade, muitos de modo totalmente desnecessário.

Um dos imóveis a lamentávelmente desaparecer dessa forma  foi o do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, que se situava onde é hoje o anexo da Assembléia Legislativa, na Praça XV. Originalmente destinado a sediar a repartição Geral dos Correios, teve sua pedra fundamental lançada em 1871, sendo as obras concluídas em 1875. Com projeto dos arquitetos Bosísio e Ballarini, foi construído durante a gestão de Pereira Passos, futuro prefeito, enquanto engenheiro do Ministério do Império.

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Cais Pharoux em 1892, visto por quem chegava na barca de Niterói. Ao centro,
o prédio do Ministério da Viação, à esquerda o Morro do Castelo e à direita
a Estação Ferry e a Rotunda, construção metálica montada para a exibição
da pintura panorâmica de Vitor Meireles sobre a baía da Guanabara

O elegante prédio tinha forma quadrangular e três pavimentos, quatro pavilhões salientes e um corpo central, e nas suas laterais jardins protegidos por grades de ferro. Visto do alto, tinha a forma de um H maiúsculo. O local passou posteriormente a sediar o Ministério da Viação e Obras Públicas, tendo como ilustre funcionário ninguém menos que o escritor Machado de Assis. Essa antiga construção foi bem aceita pela população, e o edifício era tido como dos mais belos da cidade, o que, contudo, não impediu seu desaparecimento tempos depois.

Hoje em dia vários indivíduos e grupos lutam pela valorização do patrimônio histórico, no qual dever ser incluída a paisagem urbana, em um esforço que está levando a uma transformação de uma atitude coletiva de predominante indiferença. Uma longa luta a combater hábitos antigos e arraigados, mas plenamente justificável e benéfica, pois com o tempo poderá evitar que bens valiosos, como o antigo Ministério da Viação, sejam descartados como algo sem importância.

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