quarta-feira, 13 - 06 - 2012 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Mercado da Glória

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É comum depararmos, na maioria das cidades brasileiras, com obras públicas inacabadas, manchando a paisagem com sua silhueta inútil. Sua presença só causa incômodo, sem nenhuma contrapartida representando progresso para os moradores. Outras vezes, as empreitadas não seguem um plano pré-estabelecido, cortes são feitos e o resultado acaba não atendendo ao esperado, caindo em descrédito popular.

Ao contrário do que muitos poderiam pensar, esse tipo de fato não é exclusivamente atual, mas de longa data, e acontecimentos similares já ocorreram na história do Rio de Janeiro. Um dos exemplos do passado a se encaixar na categoria foi o antigo Mercado da Glória.

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Mercado da Glória, de 1858, vítima do desinteresse e de desmandos

Em 1855, era apresentada à Câmara a proposta para a construção de um novo mercado no Largo da Glória, com o objetivo de suprir as necessidades da população local através de um centro comercial mais próximo, principalmente voltado aos gêneros alimentícios. A proposta foi deferida, mas o dinheiro para a obra faltava, o que ameaçou deixar a intenção só no papel. Eis que surge um empreendedor, o Dr. Vieira Cajueiro, que conseguiu levantar o capital, de 500 contos. Em troca, receberia os terrenos de marinha adjacentes, em caráter permanente.

Estando tudo acertado, foi contratado o arquiteto Bethencourt da Silva, que elaborou o projeto. Com forma quadrangular, tinha em cada face um portão e doze portas, encimadas por 12 janelas no andar superior. O empreiteiro, para cortar custos, não seguiu o que o arquiteto havia traçado, diminuindo a altura do pé direito e retirando elementos decorativos, tornando a aparência do  prédio bastante mesquinha. No pátio central, onde estava prevista a instalação de um chafariz, foi colocado um poste…

À embalagem externa disforme, somou-se o desinteresse do poder público em estimular a ocupação por comerciantes, e os poucos que se estabeleceram foram com o tempo substituídos por elementos de baixo nível, com o mercado se transformando em verdadeiro cortiço, causa de reclamações constantes por parte dos moradores locais. Em 1893, nele foi alojado um batalhão, que permaneceu até 1895, após o que foi fechado.

O final da funesta empreitada, verdadeiro pau que nasceu torto, só aconteceria em 1904, quando o prefeito Pereira Passos se apressou em demolir o prédio e construir em seu local o Jardim da Glória, o qual sobreviveu até quando as obras do metrô, nos anos 70, mudaram tudo mais uma vez.

A história do Mercado da Glória mostra que, em se tratando de obras públicas, o sucesso depende do comprometimento total dos administradores, e também que as propostas atendam a reais necessidades da população. Só essa combinação pode garantir que o que se constrói não se transformará em mais um monumento involuntário à corrupção e ao desmando, devidamente financiado, como sempre, aliás,  pelo bolso do contribuinte.

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