quarta-feira, 11 - 01 - 2012 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Lago

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Uma das iniciativas mais urgentes dos primeiros governantes do Rio de Janeiro, não mais que uma aldeia então, foi a de procurar garantir o abastecimento através do desenvolvimento da lavoura, para a qual não faltavam terras, água e muito menos sol.

Com essa intenção, Antônio Salema, governador de 1575 a 77, iniciou a construção de um engenho de cana às margens da lagoa Rodrigo de Freitas, que aliás ainda não tinha esse nome. O engenho d’El Rei, pois era uma iniciativa bancada pela coroa portuguesa, devorou uma pequena fortuna dos cofres reais, e não produziu nada. Ao deixar o posto, Salema legou a Cristóvão de Barros, governante interino, a tarefa de concluir o projeto, o que não lhe interessava, pois ele mesmo possuía um engenho em pleno funcionamento e a concorrência só atrapalharia. A empresa de Salema fracassou, e a propriedade acabaria mudando de mãos.

O acesso ao engenho, contudo, estimulou a ocupação de uma grande área, destacando-se o trecho onde seria o futuro bairro de Botafogo. Ainda no século XVI, um companheiro de Estácio de Sá, Francisco Velho, recebeu a maior parte das terras, nas quais por algum tempo desenvolveu lavoura. Essa propriedade, que acabou abandonada,  passaria a João Pereira de Sousa Botafogo no início do século seguinte, em recompensa a serviços prestados no combate aos franceses remanescentes e tamoios em Cabo Frio. Daí por diante, o bairro teria o mesmo nome de João Pereira.

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A paisagem  ainda visível nas águas calmas da enseada de Botafogo dos anos 20

Sua vocação agrícola prosseguiu pelos duzentos anos seguintes, pois estava demasiadamente afastado do centro, com caminhos precários e em uma época em que ainda não existia transporte coletivo. A transformação de Botafogo aconteceu, como noutros locais da cidade, com a chegada da côrte portuguesa em 1808. A carência de imóveis causada pelo aumento súbito da população persistia, apesar do despejo em massa dos habitantes locais e cessão à força de suas moradias aos nobres portugueses. Era preciso construir e buscar novas áreas.

A grande presença de estrangeiros também foi um fator importante na criação dos novos bairros residenciais, pois muitos deles estavam habituados ao conforto, coisa que os sobrados do centro da cidade escassamente ofereciam. Em sua procura, descobriram a enseada de Botafogo, e lá fizeram belas residências. Um dos melhores testemunhos é o de Maria Graham, uma inglesa que esteve no Rio na década de 1820, tendo se tornado preceptora da princesa D. Maria da Glória, filha de D. Pedro I, que assim descreveu o local: “Talvez o mais belo ponto dos arredores do Rio, rico como é em sua beleza natural; e essa beleza é aumentada pelas numerosas e graciosas casas de campo que agora a rodeiam“.

Ou segundo Moreira de Azevedo, décadas depois:

Fechada pelos Morros da Viúva e Pedra da Urca tem essa enseada as águas sempre tranqüilas e serenas; cercada por uma praia semicircular, bordada de palácios magníficos, de árvores e jardins bem cultivados, avistando-se ao longe as montanhas desiguais em tamanho e altura, é este lugar tão belo e pitoresco, que parece ter a natureza reunido ali todos seus encantos e primores.

Confirmando essa preferência, a rainha Carlota Joaquina, esposa de D. João VI, montou casa na praia, esquina com o Caminho Novo de Botafogo, atual rua Marquês de Abrantes. Além dos vários palacetes que surgiram durante o século XIX, o bairro se tornou um dos locais de escolha dos colégios de elite, sendo o mais famoso deles o Colégio Abílio, do Barão de Macaúbas, que ficava onde foi o Colégio Anglo-Americano. Na praia também havia um teatro, o Santa Leopoldina, de 1860. Dois chafarizes foram instalados, um em frente à rua Marquês de Abrantes e outro na Marquês de Olinda, que também foi ponto de atracação dos barcos que transportavam passageiros do centro até o bairro.

A aprazível enseada de águas calmas, que levou os franceses de Villegagnon a chamá-la de Le Lac (o lago), manteve sua estética até as primeiras décadas do século XX, após o que a construção de espigões e febre de aterros começou a desfigurar a antiga paisagem. A enseada de Botafogo ainda conserva parte de sua beleza original, pois nem mesmo a intervenção do homem, através de seus prédios de alto gabarito, feios e volumosos, em total desacordo com o cenário, é capaz de anular a magnífica moldura que a natureza criou, e com a qual se deveria agir em harmonia, não lutar contra.

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