quarta-feira, 18 - 01 - 2012 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Incêndio

O-Incêndio

Muitos que trabalham ou vão ao centro da cidade jamais poderiam imaginar que uma das igrejas mais antigas do Rio de Janeiro se esconde no interior de um espigão, passando desapercebida se não se atentar ao letreiro, que em vez de lanches rápidos ou sapatos anuncia: Igreja de Nossa Senhora do Parto. Mas como chegou a essa configuração bizarra um templo que, pelos séculos de existência, deveria ter sido preservado enquanto patrimônio?

Tudo começa em 1649, quando o carpinteiro João Fernandes adquire um terreno na “rua que ia para Santo Antônio”, isto é, rumo ao convento e a lagoa de mesmo nome, que ocupava o que é hoje o Largo da Carioca. Do outro lado, a área era limitada pela rua de São José, e no canto dessa o quase anônimo Fernandes erigiu um templo dedicado a N.Sª do Parto, que continuaria modestamente por décadas adiante, com algumas obras de conservação.

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Incêndio do Recolhimento do parto em 1789, obra de João Francisco Muzzi

Grandes mudanças ocorreram, contudo, no século seguinte. Em 1742, ao falecer, Estevão Dias deixara a soma de quarenta mil cruzados para obras pias, que, por decisão do bispo frei Antônio do Desterro, foi empregada anos depois para se construir algo considerado extremamente oportuno então, um “asilo para mulheres de vida desonesta, que estivessem arrependidas“. Não deixou o bispo de reparar o terreno desocupado ao lado da Igreja do Parto, entrou em entendimentos e, em 1759, era inaugurado — para melhor ou pior — o famoso Recolhimento do Parto, com capacidade para cinquenta mulheres. Além das pecadoras arrependidas, recebia mulheres casadas, as quais desse modo poderiam “se livrar da morte“, por conta de algum ato condenável, como adultério, ou então para que os “maridos as livrassem de continuar a ofendê-los“.

Em um século em que o poder do pai de família era incontestável e quase absoluto, era de se esperar que abusos acontecessem, e, de fato, aconteceram. Pais insatisfeitos com filhas que não aceitavam o noivo escolhido, maridos que não aturavam o temperamento das esposas ou que desejavam delas se livrar, tudo poderia tornar-se pretexto para que fossem enviadas à verdadeira prisão em vida que o Recolhimento representava. Segundo o escritor Joaquim Manuel de Macedo, que melhor relatou a história dessa instituição, só a menção do nome do lugar pelo marido servia para extinguir imediatamente qualquer manifestação de rebeldia por parte da esposa. Melhor era engolir o que quer que fosse a perder a preciosa liberdade, ainda que limitada. Algumas mulheres, contudo, por inconsciência ou erro de cálculo, resolveram se arriscar em aventuras no mínimo temerárias, pois em uma pequena comunidade como o Rio de então, era muito difícil furtar-se aos olhares para sempre.

Macedo nos relata o caso de duas mulheres, inicialmente amigas, que envolveram-se em adultério e acabaram no Recolhimento, sendo que uma delas, Ana Campista, para lá foi à revelia do pai, que desejava antes matá-la. Tal aconteceu em 1789, e o novo prédio do Recolhimento, cujas reformas feitas pelo vice-rei Luís de Vasconcellos iniciaram dois anos antes, estava a pleno funcionamento, com grande número de internas. Matilde e Ana Campista, nessa época já de relações cortadas, resolveram, cada uma por si, atear fogo ao odiado Recolhimento, que as retirou do convívio mundano e lançou-as ao mais profundo desespero.

Corria serena a madrugada de 24 de agosto, quando o grito de incêndio acorda a todos em sobressalto, e logo se espalha pela cidade, com os sinos das igrejas anunciando a emergência. Luís de Vasconcellos vai em pessoa coordenar os esforços, auxiliado pelo amigo Mestre Valentim. Para ele era uma perda quase pessoal ver a destruição de obra tão recente e, segundo muitos, tão útil. Como se esperava, nada adiantou, só restando as paredes de pedra. Mestre Valentim não lamentou, pois achava o prédio uma obra de péssima estética, e só havia nele trabalhado por insistência de Luís de Vasconcellos. A contragosto, contudo, viu-se obrigado a mais uma vez reformá-lo. Tal foi o afinco com que todos se dedicaram à empresa que, inacreditavelmente, em 8 de dezembro do mesmo ano, voltaram as reclusas para a casa. Dentre elas estava Matilde, que não conseguiu fugir. Ana Campista desapareceu e nunca mais foi vista, o que bastou para incriminá-la como autora do sinistro.

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Igreja de N.Sª do parto hoje, no interior de um prédio na rua Rodrigo Silva

Apesar da reconstrução, nas décadas seguintes o local entraria em processo de decadência, e, em 1814, acabava o recolhimento com a transferência para lá do hospital da Ordem Terceira do Carmo, desalojado de seu domicílio na rua do Carmo para que fosse instalada em seu lugar a Biblioteca Real. O hospital ali permaneceu até 1870, quando mudou para seu novo endereço na rua do Riachuelo.

O prédio foi muito afetado quando do alargamento da rua da Assembléia, durante a abertura da Av. Rio Branco, e na década de 1950 seria demolido junto com a igreja, esta com 350 anos de idade, para dar lugar a mais um espigão. Não era uma igreja grande nem bela, mas foi cenário de importantes acontecimentos passados, devendo ter sido protegida pelo tombamento, mesmo que ao seu redor se levantassem prédios modernos, pois era ponto de referência valioso na história do Rio de Janeiro.

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