quarta-feira, 23 - 05 - 2012 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Chafariz do Catumbi

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A chegada da côrte portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, causou grande impacto na vida da cidade, em uma dimensão que extrapolou tudo que havia acontecido, e, com certeza, o que se sucedeu. Não houve esfera da vida a não ser afetada, desde a moradia, com muitos expulsos dos próprios lares pela desapropriação, o famoso “Ponha-se na Rua”, mas também com a instalação do aparelho estatal da metrópole, elevando como que num passe de mágica a cidade colonial a um status jamais imaginado, mesmo nos sonhos mais loucos.

A súbita chegada de dezenas de milhares de pessoas e o deslocamento da população nativa causou interesse imediato pela urbanização e conquista de novas áreas, afastadas do antigo centro, até para evitar que o imóvel caísse na cobiça de nobres portugueses. Mas havia pouca disponibilidade de terrenos, pois, na região central, acima do Campo de Santana, começavam os mangais de São Diogo, uma faixa mais ou menos alagada se estendendo até onde é a Av. Francisco Bicalho, por onde entrava um braço de mar. Um acontecimento, contudo, aumentaria o interesse pelo local.

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Chafariz do Catumbi em princípios do século XIX, na antiga rua Frei Caneca

Ao chegar, a família real e sua criadagem foi alojada no Paço dos Governadores, na Praça XV, e também no Convento do Carmo e no prédio da Cadeia Velha. Moradias improvisadas, mas o melhor que pôde se arrumar, em prazo tão curto. Tudo mudou quando o negociante Elias Antônio Lopes ofereceu ao príncipe D. João uma quinta em São Cristóvão, considerada a melhor residência dos subúrbios. Localizada em terreno pertencente à antiga fazenda dos Jesuítas, após a expulsão destes foi comprado por Elias Lopes, que começou a erigir sua quinta em 1803.

D. João aceitou de bom grado a oferta, e assim nascia o palácio real, depois imperial, que se tornou sede da côrte, e, portanto, principal centro de atração da vida de então. Com isso, contudo, multiplicariam-se os deslocamentos do príncipe e seus súditos, do Centro para São Cristóvão e vice-versa. Mas o caminho era bem ruim, pois, se fosse preferida uma rota seca deveria se seguir pela rua de Matacavalos (Riachuelo) para depois atingir o Catumbi e seguir tortuosamente até São Cristóvão, fora isso restando apenas a opção pelos terrenos alagados de São Diogo.

Foi então aterrada uma faixa nesses alagados por onde a carruagem de D. João podia passar, cumprindo  um trajeto mais direto e mais rápido. Colocaram-se lampiões espaçados regularmente, os quais, acesos à noite, deram o primeiro nome da via: Caminho das Lanternas. Era uma faixa pequena, entretanto, e tornava-se imperioso conquistar a enorme área às águas, tarefa gigantesca, mas que devia começar de algum modo. Assim, em 1811, é promulgado um alvará régio concedendo isenção de impostos a quem a ocupasse, os quais contribuiriam, em defesa dos próprios interesses, para o aterramento pretendido.

Moradias surgiam, e a nova população criou a demanda por ítens indispensáveis, sendo o mais importante a água. Com chafarizes distantes e dispondo só de poços ou água de mangue, a carência do líquido desestimulava a ocupação, e portanto deveria ser resolvida com máxima urgência. Foi encarregado Paulo Fernandes Vianna, intendente de polícia, que agiu rápidamente aumentando o volume de água no Chafariz do Lagarto através de um aqueduto trazendo as águas do Rio Comprido, e construindo um novo chafariz ao lado, o do Catumbi, cujas águas serviram também a outra fonte, no Campo de Santana.

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Chafariz do Catumbi hoje: invasão, lixo e depredação

O chafariz do Catumbi tem o formato de uma torre, composta por dois corpos de cantaria, tendo na parte de cima uma varanda. De seu reservatório saíam originalmente três bicas, depois cinco, que abasteciam uma bacia, também usada pelos animais. Não há hoje não bica alguma, sendo o estado dessa antiga obra lamentável, invadido e com gente morando em seu interior, pelo menos até recentemente. Pichações feitas por vagabundos, que nada mais tem a oferecer à sociedade, completam o quadro. Infelizmente, é essa a realidade de grande parte do patrimônio histórico da cidade: abandono e depredação.

O conjunto dos dois chafarizes próximos, o do Lagarto e o do Catumbi, deveria ser melhor preservado e valorizado como atração turística e ponto de referência cultural, pois contam parte importante da história da cidade na conquista de novas áreas, criando bairros onde antes pouco ou nada havia.

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