sexta-feira, 11 - 08 - 2017 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Chafariz das Lavadeiras

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Tiradentes é, sem sombra de dúvida, um dos personagens de maior destaque de nossa história, e sua notoriedade se equipara a de Pedro Álvares Cabral, D. Pedro I ou D. Pedro II. Sua grande estima está ligada ao heroísmo ao abraçar uma causa antiautoritária, cuja defesa teve de pagar com a própria vida, tornando-se assim um modelo a inspirar todos que, em algum momento, foram ou são colocados em situações semelhantes.

Mas o indivíduo Joaquim José da Silva Xavier possuía facetas menos conhecidas, que ficaram em segundo plano por conta de seu envolvimento na Inconfidência Mineira. Além de militar e dentista, como denota o apelido, Tiradentes também formulou propostas no campo da engenharia, sendo a mais conhecida a que visava melhorar o abastecimento de água no Rio de Janeiro.

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Chafariz das Lavadeiras no Campo de Santana durante o século XIX
trazendo água do rio Maracanã, idéia original de Tiradentes

Durante a segunda metade do século XVIII, a maioria da população obtinha sua água a partir do sistema de captação do rio Carioca, distribuída principalmente nos chafarizes da Carioca, Glória e Praça XV. Para quem morava no Campo de Santana, contudo, isso era mais difícil, pois se tinha de ir até o Largo da Carioca ou então transportar em barco, através do mangue de São Diogo, a água da Bica dos Marinheiros, tarefa desgastante e pouco produtiva. Tiradentes então propôs a captação das águas do rio Maracanã, e seu transporte por tubulação até o Campo, idéia considerada completamente louca para a mentalidade tacanha da época, não sendo levada adiante.

A chegada da côrte portuguesa em 1808, contudo, resultou no aumento súbito da população e na necessidade de urbanizar e incorporar novas áreas à cidade, colocando em primeiro plano a questão do abastecimento d’água, e, para tal, D. João solicitou ao seu intendente de polícia, na verdade com poderes de prefeito, que resolvesse o problema. Paulo Fernandes Vianna logo tratou de reforçar o abastecimento do chafariz do Lagarto, através do aqueduto do Rio Comprido, tendo também construído um novo chafariz próximo, chamado de chafariz do Rio Comprido. Ambos ainda existem, e ficam na rua Frei Caneca.

Para atender com mais rapidez a população em torno do Campo de Santana, foi construída uma calha em madeira que levava as águas captadas até um chafariz de madeira no meio do Campo, com dez bicas, inaugurado em 1809. As águas do rio Maracanã, contudo, teriam de aguardar a construção da longa tubulação e de um novo chafariz de pedra no local, inaugurado em 1818.

O chafariz das Lavadeiras, como ficou conhecido, era uma obra antes funcional que bela, tendo uma forma cilíndrica de onde saíam 22 bicas, além de pias utilizadas pelas lavadeiras, e outras menores para os animais. Foram colocadas oito colunas rodeando o chafariz, duas a duas, e era comum em noites de calor os estudantes o transformarem em piscina, sendo enxotados pela polícia. Após anos de intenso uso, foi reformado em 1839 e continuou em serviço até 1873, quando foi demolido durante a reforma do Campo feita pelo paisagista francês Glaziou, por ser considerado muito feio.

O velho chafariz se localizava onde é hoje a pista que segue no sentido Centro da Av. Presidente Vargas, próximo à passagem subterrânea incorporada ao metrô nos anos 70, pois o Campo de Santana, até a construção dessa avenida, se estendia até a outra pista, próximo ao atual monumento a Caxias. Por décadas o chafariz serviu à cidade, como havia imaginado Tiradentes mais de 30 anos antes de sua construção, uma amostra do quanto poderia ter sido feito em um Brasil independente, sonho dos Inconfidentes e de muitos brasileiros de então.

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