sexta-feira, 28 - 07 - 2017 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Campo das Pitangueiras

O-Campo-das-Pitangueiras

Ao chegar ao Rio de Janeiro em 1808, a esposa do príncipe-regente D. João, Carlota Joaquina, apesar de ter moradia no Paço dos Vice- Reis, na Praça XV, e depois na Quinta da Boa Vista, adquiriu vários imóveis em áreas afastadas do Centro, até mesmo, dizem as más línguas, para ficar longe do marido.

Das mais conhecidas residências da rainha, duas se situavam na zona sul, uma na praia de Botafogo esquina com rua Marquês de Abrantes, e outra em Laranjeiras, próxima ao Largo do Machado. Nesse local, ela também comprou uma antiga capela, construída em 1720, e a reformou para uso pessoal.

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Largo do Machado, antigo Campo das Pitangueiras, antes da construção da
igreja de N.Sª da Glória. À esquerda, a antiga capela de Carlota Joaquina
(in Ferrez, G. – A  Muito Leal e Histórica Cidade do Rio de Janeiro)

A presença real acelerou a urbanização de toda região, e também atraiu outras personalidades da côrte, que ali passaram a residir. Até então, essa área, conhecida inicialmente como Campo das Pitangueiras, e depois das Laranjeiras, não tinha especial interesse, estando ainda em parte alagada pelos restos de uma lagoa chamada da Carioca, formada pelo rio de mesmo nome que passava perto. Sua drenagem foi acelerada por uma vala que levava suas águas através da atual rua Dois de Dezembro até o braço norte do Rio Carioca, que passava no meio dos quarteirões entre a Praia do Flamengo e a rua do Catete. Esse mesmo braço norte delimitava a área do Campo das Pitangueiras, que passaria a se chamar do Machado desde aproximadamente 1810, quando um açougueiro colocou na frente de sua loja um grande machado de madeira, símbolo inequívoco de sua atividade comercial, acessível a qualquer um, mesmo analfabeto. Essa idéia, criada por um gênio anônimo da comunicação, dá nome ao local há mais de duzentos anos.

Com a volta de D. João a Portugal, as propriedades de sua mulher acabariam nas mãos do Banco do Brasil, sendo o templo da rainha vendido a Antônio José de Castro e esposa. Em 1834, foi criada a nova freguesia de N.Sª da Glória, desmembrada da de S. José, o que levou à fundação, no ano seguinte, de uma Irmandade correspondente, cuja matriz provisória foi instalada em uma capela na chácara pertencente a Antônio Pereira de Velasco, na esquina da rua Pereira da Silva com a das Laranjeiras, e dedicada a N.Sª dos Prazeres.

A capela era entretanto muito pequena, o que levou à compra, logo a seguir, daquela que pertenceu a Carlota Joaquina, bem maior, e nela fez-se devida reforma. Contudo, o aumento da freqüência tornava cada vez mais necessária a construção de uma igreja de grandes dimensões, que atendesse à demanda de uma população sempre crescente.

Ao fim de várias negociações, conseguiu-se a posse de um grande terreno no meio do largo, e, em 26 de junho de 1842, com a presença do Imperador D.Pedro II, foi lançada a pedra fundamental da igreja de N.Sª da Glória. A primeira fase de construção foi concluída em 1856, sendo as imagens trasladadas do antigo para o novo templo. As obras, contudo continuariam até 1872, e a antiga capela colonial desapareceria.

Apesar de muito ter mudado ao longo do tempo, o Largo do Machado, antigo Campo das Pitangueiras, mantém sua característica essencial de ponto de convergência dessa parte da zona sul, por onde passam muitos que se dirigem a Botafogo, Flamengo, Laranjeiras, Cosme Velho, etc. O início do desenvolvimento deste verdadeiro hub do trânsito de pessoas e veículos, contudo, foi também mais uma conseqüência da mudança da situação da cidade, com sua súbita transformação em sede da côrte portuguesa, o que levaria a esposa de um casal que não se suportava a morar o mais distante possível do marido.

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