quarta-feira, 04 - 01 - 2012 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Beco dos Barbeiros

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Dentre os muitos serviços que são alvos de reclamações, a saúde sempre está entre os primeiros, pela falta de profissionais, equipamentos e suprimentos. Uma deficiência injustificável, pois o Brasil é um dos países com maior carga tributária, mas o que é arrecadado, como se sabe, quase sempre termina em cambalachos conhecidos e desconhecidos, em Brasília e no país todo. É uma infeliz tradição nacional, pelo menos até o momento.

Mas nossa situação seria um paraíso comparada àquela do Brasil colonial, quando não existia a prática científica da medicina, e os problemas de saúde eram da alçada individual, não existindo o que chamamos de saúde pública. Na prática, o atendimento era feito por pajés, boticários e barbeiros, pois os “médicos”, ou físicos, como eram chamados, eram muito poucos, pois iam estudar na Europa e raramente voltavam. Mas sua suposta erudição não ajudava em nada, muito pelo contrário: “curam por ignorância e matam  por experiência”, e,  segundo um contemporâneo, Frei Caetano Brandão, era “melhor tratar-se com um tapuia do sertão, que observa com desembaraço e instinto, do que com um médicos desses de Lisboa”.

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Beco dos Barbeiros, verdadeiro”centro de saúde”  do Rio colonial

O que era usualmente empregado, para todo tipo de doença, era a sangria, fosse feita por escravos, autorizados a tal serviço pela carência de profissionais, ou pelo cirurgião-barbeiro, que recebia sua Carta de Licenciado do Cirurgião-Mor do reino. Além disso, estava autorizado a aplicar ventosas, sarjaduras, sanguessugas, corte de cabelo, barba e extração de dentes. Outros profissionais cuidavam de fraturas, partos e os boticários dos medicamentos.

Os barbeiros tinham bastante serviço, e muitos deles se instalaram, a partir de meados do século XVIII, em uma passagem recentemente aberta, que ia da rua Direita (Primeiro de Março) até a do Carmo. E que, pela presença dos vários profissionais, recebeu o nome de Beco dos Barbeiros. O beco tem uma história peculiar, sendo na verdade um efeito colateral da construção da igreja da Ordem Terceira de N.Sª do Carmo. A confraria que originou a ordem foi fundada no Rio em 1648, e erigiu sua Capela da Paixão no interior do Convento do Carmo em 1669. Os atritos com os religiosos do Carmo levaram à decisão de se construir templo próprio, e, após várias décadas, durante as quais foram adquiridos terrenos contíguos ao lado do convento, as obras iniciaram em 1755.

A faixa de terreno que separava a igreja do convento daquela da ordem terceira foi reclamada pela Câmara como servidão pública, e, para resolver a questão, a irmandade cedeu outro terreno, ao lado de sua igreja, para substituir a passagem, ligando a rua Direita com a do Carmo, nascendo assim o Beco dos Barbeiros.

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Loja de barbeiro da época de D. João VI,  retratada por Debret

Em seu auge, podiam ser encontradas placas desse tipo no beco:

“BOTAM-SE BICHAS E VENTOSAS, BARBEIRO, CABELEIREIRO E DENTISTA”

Podemos hoje rir disso tudo, e dar graças a Deus de não ter de passar por semelhante coisa, mas não se deve esquecer que, de certo modo, as aflições atuais não são muito diferentes, quando se necessita um serviço e não se é atendido, ou quando, por descaso e carência, pessoas morrem em filas de hospitais. Com uma população infinitamente maior do que a dos tempos coloniais, e com uma demanda muito mais sofisticada pelos diversos serviços de saúde, é necessário investimentos constantes e eterna vigilância nos recursos destinados ao sistema, que freqüentemente vão parar noutros lugares, como foi o caso da CPMF, ou são fatalmente atraídos pelos buracos negros gerados no universo político.

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