quarta-feira, 30 - 11 - 2011 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Bairro da Misericórdia

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Reconhecer o passado de uma cidade a partir de sua aparência atual é uma tarefa às vezes difícil, com resultados variados. Por vezes, trechos inteiros são preservados, como os centros históricos, e é comum, nesse caso, que tornem-se ponto focal de mudanças que reinstituam o pedestre como prioridade, criando áreas sem circulação de automóveis, e onde o transporte coletivo atende com eficiência às necessidades do público morador e flutuante, com o metrô ou bonde, hoje chamado de VLT. Assim ocorreu em várias cidades europeias, muitas incluídas no grupo de mais alto índice de qualidade de vida.

Contudo, não é raro que partes ou bairros tenham ficado quase irreconhecíveis, como em uma cirurgia plástica desastrada, e que deles pouco ou nada subsista, quando muito alguns pontos de referência que permitem visualizar, pela imaginação, a antiga aparência. Um dos locais mais antigos do Rio de Janeiro, que quase completou quatro séculos de existência, inclui-se nessa categoria, e hoje, em que pese sua importância histórica, restam só vestígios a lembrar o velho bairro da Misericórdia.

Inicialmente um trecho do litoral aos pés do Morro do Castelo, com sua cidade fundada por Estácio de Sá, foi o primeiro porto da comunidade, amplamente utilizado pelos padres da Companhia de Jesus, missionários pioneiros que construíram seu Colégio também no morro logo acima. A presença dos religiosos daria o primeiro nome ao local: Praia e Porto dos Padres da Companhia. Como o transporte dos diversos bens ladeira acima era extremamente penoso, os jesuítas construíram uma espécie de plano inclinado, da praia até o topo, que por sua vez daria nome à futura Travessa do Guindaste, posteriormente conhecida como Costa Velho.

misericordiaMisericórdia, quatro séculos de história
terminando em completo abandono

A Rua da Misericórdia teria sido aberta em torno de 1569, e, como área portuária, tinha intensa atividade comercial, constituindo-se a primeira etapa de expansão fora dos limites da cidadela no Morro do Castelo. Teve rápido crescimento, e, durante a Colônia, foi neste local — estreita faixa de terra entre a Igreja de São José e a Santa Casa e Igreja de N.Sª de Bonsucesso — que ficavam os mais importantes contratadores, os principais armazéns e o Conselho da Câmara e cadeia, onde é hoje a Assembléia Legislativa.

Várias ruas, becos e travessas compunham o velho bairro, todas com alguma significação histórica. O Largo do Moura, por exemplo, que recebeu este nome por lá se aquartelar em 1767 um regimento vindo daquela cidade portuguesa, se tornou um dos locais onde a fôrca era montada. Esta, por sua vez, daria nome a um beco próximo, o da “Boa Morte”, em uma amostra de sarcasmo colonial. Outro local, o Beco do Teatro, foi assim chamado por situar-se atrás do Teatro de S. Januário, um dos mais antigos e onde aconteceu o primeiro baile de carnaval, em 1846.

O bairro, desaparecido no século passado, talvez tenha sido a área do Rio de Janeiro associada com a maior quantidade de eventos históricos, em seus quase quatro séculos. Hoje pouco resta, só alguns prédios antigos na Rua D. Manuel, além da Igreja de N.Sª de Bonsucesso e o antigo Arsenal de Guerra, hoje Museu Histórico Nacional, na outra extremidade. Entre estes dois pontos, nada. A Misericórdia começou a ser riscada do mapa com a destruição do Morro do Castelo e a Exposição de 1922, e foi vítima de um período no qual se sentia vergonha do passado que aquelas ruas representavam. Não eram testemunho dos séculos de luta e conquista a ser valorizado, e sim uma mácula a ser escondida e largada para morrer à mingua. As últimas casas desapareceriam em 1953, e hoje o espaço é progressivamente ocupado por obras faraônicas de concreto e vidro, que metamorfoseiam o desfigurado em irreconhecível.

O antigo conjunto arquitetônico, caso preservado, poderia constituir-se em precioso acervo do rico, embora desfalcado, patrimônio histórico carioca. Seu destino deve servir como matéria de reflexão acerca das prioridades que norteiam as intervenções feitas pelo estado no tecido urbano, normalmente orientadas por interesses imediatistas e venais. A Misericórdia infelizmente já se foi, mas muito ainda resta do passado do Rio de Janeiro, e só a força da comunidade poderá impedir novos assaltos ao que pertence a todos, e que assim deveria permanecer.

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