quarta-feira, 26 - 07 - 2017 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

O Arsenal

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Em 1º de janeiro de 1763 falecia o governador Gomes Freire, um dos que mais fez pelo Rio de Janeiro, vítima do grande choque causado pela perda da colônia do Sacramento (Uruguai) no sul, sob sua responsabilidade. Para substituí-lo, a metrópole enviou no mesmo ano o Conde da Cunha, que se tornaria o primeiro vice-rei estabelecido na cidade, promovida a capital da colônia.

Arbitrário e antipático, porém trabalhador e eficaz, o Conde da Cunha dedicou especial atenção às obras de defesa, pois ainda era viva a lembrança e o trauma das invasões francesas de décadas antes, que cobraram alto preço à comunidade. Além da melhora das fortificações, o vice-rei criou, em 1764, o primeiro Arsenal de Marinha do Brasil, em terrenos doados pelo Mosteiro de São Bento no século anterior.

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Antiga Praia de São Bento, onde foi instalado o Arsenal de Marinha em 1764, 
local do atual 1º Distrito Naval

Nas modestas instalações coloniais foi construída em 1770 a nau D. Sebastião, que serviria a coroa portuguesa por muitos anos, tendo inclusive transportado em 1817 a princesa D. Leopoldina da Europa para nossas terras, onde se tornaria esposa de D. Pedro I. Apesar de suas grandes realizações, principalmente quando se leva em conta as limitações materiais, o Arsenal não impressionava, sendo descrito pelo inglês John Lucock, como um grupo de “miseráveis telheiros”.

Sua situação mudaria a partir de 1822, na Independência, com a compra de equipamentos e contratação de oficiais estrangeiros, como Lord Cochrane, Primeiro-Almirante da Marinha Imperial. Mas o desenvolvimento técnico e a expansão do Arsenal se transformariam em trabalho contínuo, secular. Uma das primeiras e necessárias obras era a construção de um dique seco, pois o único existente se localizava no Maranhão, distante e com limitações.

O primeiro dique teve as obras iniciadas em 1824, mas só seria inaugurado em 1861, depois de quase quarenta anos, e seu primeiro nome foi Dique Imperial. Em 1874, entrava em serviço o dique Santa Cruz, e, em 1928, mais cem anos após o inicio das obras do primeiro, finalizou-se o terceiro dique, chamado então de Rio de Janeiro, a maior instalação de reparo da América do Sul.

Durante este período, o Arsenal de Marinha sofreu grande evolução tecnológica, habilitando-se na construção de diversos tipos de embarcações destinadas à defesa das águas territoriais, sendo inclusive capaz de produzir submarinos, um feito excepcional, pelo menos em termos do panorama sul-americano.

No momento em que a economia brasileira se encontra em plena expansão, torna-se cada vez mais necessária a renovação e ampliação das estruturas de transporte do país, com destaque para o transporte marítimo, além do ferroviário, por décadas relegados ao segundo plano por um rodoviarismo cego e sem futuro, o qual impediu a construção de uma infraestrutura que permitisse uma ligação eficaz do Brasil com o mundo e as trocas comerciais que este possibilita. Além disso, as riquezas existentes na plataforma continental que começam a ser exploradas vão com certeza demandar uma maior proteção do que a atual. Tudo isso coloca em destaque o papel do transporte marítimo e a defesa das águas brasileiras, na qual a Marinha tem papel fundamental.

Nesse sentido, torna-se oportuna a lembrança do Conde da Cunha e suas preocupações, as quais o levaram a fundar o Arsenal 1764 para melhor proteger a colônia dos ataques de aventureiros, sempre a espreitar a riqueza alheia desprotegida, tanto então como agora.

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