quarta-feira, 16 - 05 - 2012 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

As Obras da Sé

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As antigas igrejas do Rio de janeiro formam, em seu conjunto, talvez a parte mais importante do patrimônio da cidade, com uma história se estendendo por mais de quatro séculos. Parte essencial do cotidiano de então, muito mais que hoje, os edifícios testemunharam inúmeros acontecimentos, pelos quais a mão do acaso formou o conjunto por nós conhecido.

Seria contudo errôneo supor que sua origem deveu-se unicamente à devoção religiosa, embora essa tenha sido a principal motivação, pelo menos no que tange aos fiéis, sem cujo esforço e doações não teria sido possível materializar os templos. Mas a todo momento sobrevinham paixões e interesses, dos mais puros aos mais mesquinhos, como, alías, em qualquer ramo de atividade humana. Um dos primeiros eventos desse tipo ocorreu em meados do século XVII, como veremos a seguir.

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As intermináveis obras da Sé, na época do príncipe-regente D. João

Após as primeiras décadas da nova cidade no alto do Morro do Castelo, localização estratégica contra inimigos por mar ou terra, começou a ocupação das terras na parte baixa, à beira-mar, chamadas de várzea e acrescidas paulatinamente pela dragagem de pântanos e alagados. A conveniência de não ter de subir o morro levou mesmo à transferência da Câmara a partir de 1639, com a construção da cadeia nova, que era também local de reunião dos representantes. O prédio ficava ao lado da Igreja de São José, no final da rua da Misericórdia, e tornou-se célebre, dentre outras coisas, por ser onde ficou preso Tiradentes.

A Igreja de São José, uma das primeiras construções da várzea, foi inicialmente uma ermida, provavelmente construída em 1608. Tempos depois sofreu a primeira reforma, transformando-se em verdadeira igreja, o que despertou a cobiça do administrador eclesiástico da Sé, D. Manuel de Sousa Almada, no ano de 1659. Com a Igreja de São Sebastião no Castelo, sede da Sé, arruinada pela carência de recursos para manutenção, e número decrescente de fiéis, pretendeu Almada tomar a igreja de São José à força, mas sua tentativa foi rechaçada por depender de autorização da Coroa, a qual recusou. Mas isso não foi o fim da história.

Setenta anos após, uma nova geração de religiosos tentaria mais uma vez sair do Castelo, o que causaria várias conseqüências inesperadas. O bispo D. Antônio de Guadalupe conseguiu um alvará para a transferência da Sé para a Igreja da Cruz dos Militares, e, na calada de uma noite de fevereiro de 1734, invadiram o templo e deles se apossaram. Nos dia seguinte, os donos da casa constataram estupefatos a invasão, o que levou nos anos seguintes a uma série de conflitos, com os militares resistindo à força às interferências dos religiosos. A igreja passou a não ter nenhuma manutenção, e após um pedaço do teto quase cair em cima dos invasores, estes decidiram mudar de casa. Mas para o Castelo é que não voltavam.

A próxima vítima foi a igreja do Rosário, construída com sacrifício pela Irmandade de N.Sª do Rosário e S. Benedito dos Homens de Cor, originalmente situada — ironia — na Igreja de São Sebastião no Castelo. De lá praticamente expulsos em 1710 pelos mesmos religiosos, passaram por muitas dificuldades e peripécias, mas em 1725 já tinham seu templo, construído em uma área então afastada e desvalorizada. Os pobres escravos libertos não gostaram nem um pouco da invasão, ocorrida em 1737, mas tiveram de engolir. Não tinham o mesmo poder de fogo (que aliás podia ser literal) dos militares para resistir.

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Antiga Escola Politécnica, hoje Ifcs da UFRJ, construída onde ficaria a Sé nova

Seguiram-se os habituais conflitos, e avaliou-se que a única solução seria a construção de uma nova Sé. O governador Gomes Freire iniciou a empreitada, sendo o terreno escolhido no atual Largo de São Francisco. Os alicerces foram lançados em 1739, mas as paralisaram-se as obras pouco depois. A lentidão e as interrupções seguidas faziam com que os trabalhos se arrastassem por décadas, e o espírito mordaz do carioca levou à criação de uma nova expressão, para designar tudo aquilo que não termina nunca: “Isto é velho como as obras da Sé!”.

Assim continuou por todo período colonial, e quando D.João chegou em 1808, as obras não estavam muito mais adiantadas que na época de Gomes Freire. O desfecho ocorreria a partir da iniciativa de um dos principais aduladores da côrte, Fernando José de Almeida, o Fernandinho, barbeiro e cabeleireiro de D. João, que com sua conversa mole conseguia quase tudo. Este convenceu o príncipe-regente a construir o Teatro São João, depois São Pedro, em 1813, um dos mais importantes do século XIX, e que se situava onde é hoje o João Caetano. Foi utilizado em sua construção o material das obras da Sé, acabando enfim com a interminável história.

Tempos depois, no lugar onde deveria ter sido a Sé, foi construída a Academia Real Militar, a qual daria origem à Escola Politécnica. Em seu prédio hoje está o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, último elo de uma longa cadeia de acontecimentos originada pelo anseio, aliás compreensível, de um grupo de religiosos por uma melhor moradia, há quase trezentos anos.

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