sexta-feira, 04 - 08 - 2017 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

As Barcas Ferry

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Em 29 de junho de 1862, com a presença do imperador D.Pedro II, era inaugurado um novo serviço de transporte de pessoas e cargas, feito pela empresa Companhia de Barcas Ferry. Uma grande multidão aguardava a cerimônia na Praça XV, ansiosa em conhecer a novidade. As embarcações, de origem americana, eram completamente diferentes das aqui conhecidas, pois tinham duas proas, além de serem movidas a rodas de pás nas laterais, como nos barcos que percorriam o rio Mississipi. Além disso, foi construída uma estação para embarque com pontes flutuantes, pois até então eram usadas simples pontes de madeira.

Todas as melhorias aumentaram tremendamente a facilidade de se viajar a Niterói, e tanto foi o sucesso que a empresa estendeu o horário das barcas até 11:30 da noite — isso no ano de 1862, acreditem se quiser.

barcas_ferryEstação Ferry na Praça XV, em seu aspecto original de 1862

O transporte a vapor para Niterói começou na verdade bem antes, na época de D. João VI. O monarca outorgou uma concessão a dois ingleses em 1817, que contudo não levaram a iniciativa adiante. Quatro anos depois, em 1821, surgiu um serviço irregular ligando o Rio a Niterói e também à ilha de Paquetá, feito por uma barca chamada Bragança. Também não durou muito tempo. Em 1834 surgia finalmente a primeira empresa destinada a colocar em ação um sistema de transporte eficaz entre a capital e Niterói. A Sociedade de Navegação de Nichteroy começou o serviço no ano seguinte com três barcas: Nichteroyense, Praia Grande e Especuladora. Com capacidade para 250 pessoas, trafegavam de hora em hora, criando a primeira ligação de fato com Niterói.

A empresa se fundiria em 1852 com a Companhia de Inhomirim, que realizava serviço para Porto da Caixas e Porto da Estrela, e que havia obtido permissão para estender suas linhas. Além de levar passageiros até Niterói e ao rio Inhomirim e as ilhas de Paquetá e do Governador, a empresa regularizou o transporte até São Cristóvão e Botafogo, onde os passageiros podiam desembarcar em frente à rua Marquês de Olinda ou na São Clemente.

A Companhia Nichteroy-Inhomirim, contudo, não conseguiu resistir à concorrência da Barcas Ferry, que fazia as viagens em muito menos tempo e com mais conforto, e encerraria suas atividades em 1865, três anos sómente após a entrada da concorrente no mercado. A Cia. de Barcas Ferry, por sua vez, se fundiria em 1889 com a Empresa de Obras Públicas no Brasil, a nova empresa passando a se chamar Companhia Cantareira e Viação Fluminense, a qual dominaria o transporte marítimo na Baía da Guanabara até os anos 50, sendo famosa pela péssima qualidade dos serviços em seu período final, fato que levou em 1959 à Revolta das Barcas, com diversos incêndios, mortos e destruição da estação de barcas de Niterói.

A utilização do transporte marítimo em uma cidade banhada pelo mar como o Rio de Janeiro é uma opção óbvia, e, como por se depreender do pequeno resumo histórico acima, era isso mesmo que se pensava no século XIX, quando surgiram essas iniciativas. Mas, durante o século passado, principalmente após a Segunda Guerra, procurou-se tudo sucatear em favor do transporte rodoviário, uma opção estúpida que deixou o país sem uma infraestrutura de transporte adequada à suas dimensões, gerando uma carência responsável por boa parte do famoso “custo Brasil”, pago por todos cotidianamente. Assim, por exemplo, em um primor de irracionalidade, são frequentemente enviadas mercadorias em caminhão do Rio Grande do Sul ao Pará, por falta de uma opção eficiente de transporte por cabotagem.

O transporte marítimo também poderia ser uma excelente opção a nível urbano, pois hoje em dia existem embarcações do tipo catamarã que enfrentam com facilidade o mar aberto, como por exemplo entre a Espanha e o Marrocos ou entre a Dinamarca e a Suécia, que poderiam ligar a Barra ao Centro ou a outros pontos da baía de Guanabara, ou quem sabe até o Rio a Cabo Frio. Todas essas soluções, assim como a modernização do transporte ferroviário, são possíveis, e poderiam representar um avanço na qualidade dos serviços ao resgatar uma parte do atraso e da pobreza que representa o transporte rodoviário, imposto há décadas a toda população como única opção.

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