quarta-feira, 09 - 08 - 2017 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

A Ressaca

A-Ressaca

Quase todas as obras feitas ao longo do litoral do Rio de Janeiro, principalmente entre o centro e a zona sul, tiveram como denominador comum o fato de que o mar era cada vez mais afastado do convívio com os habitantes. No começo do século passado, durante a administração Passos na prefeitura, fizeram-se vários aterros que retificaram a linha costeira do centro até Botafogo, onde se abriu a avenida Beira-Mar.  Desapareceriam o Cais da Glória, a praia do Russel, e no Flamengo o mar ficou mais distante das casas, apesar de ainda poder ser ouvido e percebido pelo olfato. Após o Aterro, contudo, tem de se andar muito para chegar até a água, a qual não pode ser mais vista como antigamente.

ressaca_flamengo

Ressaca na Praia do Flamengo, no começo do século passado
(Revista Eu Sei Tudo, 1919)

 A mania dos aterros continua até hoje, e parece que existe uma compulsão incontrolável de colocar sempre mais alguma coisa junto ao mar, que com certeza irá prejudicar a vista. Além de não ser visto, a não ser que se esteja no alto de um prédio, seu distanciamento também privou os cariocas de seu aspecto mais imprevisível, as ressacas, que periódicamente deixavam sua marca. O poder destrutivo das águas, que, insufladas pelo vento, invadiam ruas e casas, causava grande transtorno, mas ao mesmo tempo atraía a curiosidade de muitos, que se arriscavam para ver o flagelo das ondas.

Muitas ressacas aconteceram na história do Rio, castigando tanto o centro como as praias da zona sul e o interior da baía, sendo consideradas como mais uma entre as várias fatalidades cotidianas, como enchentes, resfriados, impostos ou a morte. Sua familiaridade pode até mesmo ser constatada no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, onde Escobar, o amigo da onça de Bentinho, o Dom Casmurro, enfrentava com destemor as ondas da Praia do Flamengo, até o dia em que estas levaram a melhor e ele morreu afogado. Nessa época, em torno de 1870, poucas pessoas se aventuravam no mar bravio, que se chocava violentamente contra o paredão de pedra próximo às moradias da praia, substituído por outro após a construção da Av. Beira-Mar, agora em local mais distante.

flamengo_qmar Parte da antiga muralha à beira-mar na esquina da Praia do Flamengo
com rua Almirante Tamandaré, exposta em obras no ano de 1998, e
provávelmente contemporânea à ação descrita no romance
D.Casmurro,
 de Machado de Assis (foto do autor).

Nada disso mais existe, e só em ressacas excepcionais algumas praias são atingidas, como Ipanema e principalmente o Leblon, por conta de sua faixa de areia estreita. É conveniente que não tenhamos mais nossa rotina prejudicada por tal acontecimento natural, mas, ao evitarmos esse contratempo, também perdemos o contato com uma das mais importantes características da vida carioca, presente ao longo de toda sua história.

Ir à praia é muito bom, mas sempre que possível deveria ser restituída a vista do mar, como se fez recentemente na Praça XV, com a desativação de um infeliz estacionamento de automóveis existente ao lado da estação das barcas que impedia sua visão. Iniciativas nesse sentido podem trazer de volta um pouco da convivência com esse elemento tão indissociável de nosso passado e sempre inspirador de uma admiração inesgotável.

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