quarta-feira, 09 - 05 - 2012 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

A Igreja de Santana

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A Praça da República é, sem dúvida, um dos pontos mais destacados do centro do Rio de Janeiro, com amplas dimensões e belos jardins projetados pelo paisagista Glaziou em 1873. Gatos, marrecos e cotias desfrutam permanentemente da área verde, assim como grande número de pedestres que a cruzam diariamente em busca das ruas centrais. O parque é ainda por cima emoldurado por imóveis históricos imponentes, valorizando ainda mais o local, em que pese uma boa parte do conjunto ter sido perdido quando da abertura da Av. Pres. Vargas, uma das obras que mais mutilou o Centro.

O parque, fato curioso, ainda é chamado pela maioria das pessoas de Campo de Santana, por conta de uma tradição imemorial. Mas se a igreja de Santana fica na rua Santana, afastada, por que motivo o campo leva seu nome?

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Igreja de Santana em dia de festa, meados do século XIX
O templo ficava onde é hoje a gare da Central do Brasil

Tudo começa em princípios do século XVIII, quando a cidade se concentrava entre o que é hoje a rua Uruguaiana e o mar. A área indefinida que se estendia ao norte, até os mangais de São Diogo — um braço de mar que entrava pela atual av. Francisco Bicalho e terminava próximo à Central — era conhecida como Campo da Cidade. Foi então que a Irmandade de São Domingos, formada por ex-escravos, e que tinham a imagem de seu padroeiro na Igreja de São Sebastião no morro do Castelo, foram forçados a de lá sair, e receberam da Câmara uma faixa de terreno de vinte braças para erguer seu templo. A obra começou em 1706, em um local situado aproximadamente no cruzamento da Av. Passos com a Pres. Vargas. A igreja se tornou a única construção presente, o que mudou o nome da região, doravante chamada de Campo de São Domingos.

Em um dos altares dessa igreja estava a imagem de Sant’Ana, cujos devotos, em número crescente, realizavam vários festejos, enciumando os donos da casa, os quais criaram todo tipo de conflitos, o que levou os seguidores de Sant’Ana a se refugiar na capela do Cônego Antônio Lopes Xavier, que ficava na rua General Câmara (também destruída pela Av. Pres. Vargas). Lá criaram a Irmandade de Sant’Ana, depois transformada em Ordem Terceira. Também receberam do arcediago da Sé, Antônio Pereira da Cunha, um terreno para construir seu templo, para os lados do bairro dos Cajueiros. A capela foi reconhecida pela autoridade eclesiástica em 1735, mas sua presença já havia dado nome à grande área próxima: Campo de Santana.

O modesto templo conheceu altos e baixos, com periódicas degradações e restaurações, tão típicas então quanto hoje, mas continuava bastante ativo na vida da comunidade. Sua principal atração era a festa do Espírito Santo, um acontecimento marcante nos tempos da Colônia e Império, que todos aguardavam com expectativa.

Em meados do século XIX, contudo, a primeira igreja de Sant’Ana passou a ter os dias contados, pois a projetada Estrada de Ferro D. Pedro II exigia seu sacrifício para erigir a gare central da ferrovia, exatamente onde ficava o templo. Os fiéis recolheram as imagens à igreja de São Gonçalo Garcia (conhecida hoje como de São Jorge) enquanto aguardavam a construção da nova casa, sendo a E.F. Pedro II inaugurada em 29 de março de 1858.

O templo foi para a rua das Flores, em um terreno onde se iniciaram as obras da cadeia nova 30 anos antes, nunca concluídas. A igreja era inicialmente um construção modesta, e ficou pronta em 1870. A seguir iniciou-se a construção da nova matriz, franqueada ao público em 1878. Várias obras complementares, como do pórtico e da fachada estenderam os trabalhos até 1942.

Essa longa história é a razão pela qual a tradição popular insiste em chamar o grande parque de Campo de Santana, mais de um século e meio depois da antiga igreja se mudar para a rua que hoje leva seu nome, que é como também foi chamado o bairro em que se situava, dos mais populosos e populares do Rio antigo, e que tinha sua contrapartida profana gravitando em torno da Praça Onze.

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