quarta-feira, 06 - 09 - 2017 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

A Garagem de Santo Antônio

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A introdução da tração elétrica nos bondes do Rio de Janeiro, em 1892, significou um tremendo salto de qualidade na história do transporte carioca. Agora, as viagens poderiam ser feitas com mais rapidez, e, além disso, ia desaparecendo do ar o cheiro de estrume com a aposentadoria dos animais de tração, que teriam seu merecido descanso.

A primeira empresa usar a eletricidade foi a Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico, o que era esperado, pois dispunha de mais recursos. Mas a segunda companhia a adotar a nova tecnologia, a Companhia Ferro-Carril Carioca, foi até certo ponto uma surpresa, pois tinha linhas exclusivamente no bairro de Santa Teresa, e era bem menor que outras, como a de São Cristóvão ou Vila Isabel. A inauguração do novo sistema ocorreu em 1º de setembro de 1896, e, além dos bondes elétricos, os passageiros foram brindados com uma grande atração extra.

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Bondes de Santa Teresa na garagem do Morro de Santo Antônio,nos
últimos tempos da da Cia. Ferro-Carril Carioca, começo dos anos 60.

Até essa época, o acesso a Santa Teresa era feito principalmente de duas maneiras: pela rua Monte Alegre, rota usual das diligências, e pelo Plano Inclinado, a partir de 1877, cujo embarque ficava na rua do Riachuelo junto à Ladeira do Castro, levando os passageiros até próximo ao Largo do Guimarães. Ao lá chegar, embarcava-se em bondes de tração animal para ir a Paula Matos ou em direção ao França e Silvestre. A tração elétrica, contudo, abriu uma nova e excitante possibilidade: uma vez que o velho aqueduto da Carioca (os arcos) encontrava-se desativado, pois a maior parte da água então consumida provinha do Rio d’Ouro, porque não utilizá-lo para acessar o morro de Santa Teresa?

Obtidas as devidas autorizações, tal foi feito, e é aliás pelo fato de que esses bondes passam pelos arcos que possuem a incomum bitola de 1,10m, largura máxima possível dadas as limitações da antiga construção. A estação de partida foi instalada no Largo da Carioca, inicialmente entre o prédio da Imprensa Nacional e o chafariz da Carioca, que se localizava próximo à saída Santo Antônio do metrô. Os bondes a seguir iam subindo uma ladeira pelo morro de Santo Antônio para alcançar os arcos, cuja travessia arrepiou os pelos da nuca dos primeiros passageiros.

Próximo à linha no morro de Santo Antônio foi instalada a garagem da Cia. Ferro-Carril Carioca. Com bastante espaço para abrigar os muitos veículos, bem mais que atualmente, pois além das unidades motorizadas haviam reboques, a velha garagem prestou serviços até a destruição final do morro, aproximadamente em 1965. Ela pode ser vista em trechos do filme de Marcel Camus Orfeu Negro, de 1959, onde o personagem principal é funcionário da empresa de bondes. Na verdade, a película mistura cenas da garagem da Ferro-Carril Carioca com bondes da Jardim Botânico (Light) na Cinelândia.

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Bonde de Santa Teresa chegando no Largo da Carioca, com a estação ainda
localizada no edifício da Ordem Terceira da Penitência, na esquina
da rua da
 Carioca. Ao fundo, o Tabuleiro da Baiana.

Com o desaparecimento do morro de Santo Antônio, a garagem dos bondes de Santa Teresa passou a funcionar nas instalações da estação do antigo plano inclinado, no final da rua Carlos Brandt, e lá continua até hoje. O trecho da rua que vai do Largo do Guimarães até a garagem também foi utilizado em outro filme, este de Carlos Hugo Christensen, Crônica da Cidade Amada, de 1964, no episódio A Morena e o Louro, onde os bondes ainda estão pintados de verde, côr da Cia. Ferro-Carril Carioca.

O desmonte do morro de certo modo marcou o início da decadência do sistema de bondes do bairro, acelerado pela entrada funesta da CTC (Companhia de Transporte Coletivo – empresa estadual) na administração do sistema. As chuvas de 66 e 67 destruíram grande parte das linhas, e nessa época foram introduzidos os ônibus no bairro pela infeliz CTC, enormes monoblocos Mercedes que acabaram causando a retirada dos reboques de circulação, pois se encontrassem um bonde com reboque em algumas das muitas curvas fechadas, não seria possível passar.

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Garagem do morro de Santo Antônio, com os bondes já com as cores da CTC, 
em 1965: o início de uma longa decadência.

Quase 50 anos depois, está tudo abandonado, sendo feitas muitas promessas para a recuperação, mas que até o momento não se concretizaram. A longo do tempo, uma série de atitudes infelizes fizeram com que a situação dos bondes só fizesse piorar, incluindo a substituição ilegal do mecanismo de tração original, tombado pelo patrimônio histórico, por um sistema inadequado que acabou causando acidentes com mortes. Isso se somou aos trilhos em péssimo estado, substituídos em 1978-79 por uma verdadeira gambiarra feita por dois trilhos de trem de cada lado, ao invés dos trilhos de fenda utilizados pelos bondes, que, além de serem inadequados, fizeram com que a pista em torno dos trilhos ficasse totalmente irregular, pois o perfil baixo dos trilhos de trem faz com que o pavimento afunde, e os dormentes acabam formando as famosas “costelas de vaca”. Some-se a isso o roubo da fiação aérea entre o Corpo de Bombeiros e o Silvestre, dentre as muitas tragédias, para se ter uma idéia do desprezo e descaso de várias administrações sucessivas de prefeitos, governadores, etc, que usam sem hesitar a imagem do bonde em suas propagandas quando lhes interessa, mas que logo a seguir ignoram completamente sua existência.

Melhor destino merecia aquele que é o único sistema de bondes com bancos em platéia sobrevivente do mundo, e um dos símbolos mais conhecidos desta cidade.

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