quarta-feira, 23 - 08 - 2017 | Escrito por Paulo Pacini Rio Antigo

A Chácara da Bica

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Dominando o cenário da Lapa há quase duzentos anos, o Convento de Santa Teresa é um dos símbolos mais conhecidos do Rio, formando um conjunto histórico notável junto com outra obra famosa e contemporânea sua, os Arcos, antigo aqueduto da Carioca.

O convento, na verdade, sucedeu a um templo mais antigo, a Ermida de N.Sª do Desterro, construída por Antônio Gomes do Desterro em 1629, que deu o primeiro nome ao morro de Santa Teresa, então chamado de Desterro. A ermida teve grande importância durante a invasão francesa de 1710, pois foi o primeiro lugar a combater o invasor, que buscava o centro da cidade pelo caminho de Matacavalos (rua do Riachuelo). Acabaria derrotado e preso.

vista_muratori

Vista de 1915 da área próxima a antiga Chácara da Bica. À direita está o Convento
de Santa Teresa, e à esquerda vê-se os morros de Santo Antônio e do Castelo,
já tendo perdido uma parte com a abertura da Avenida Rio Branco, onde podem
ser vistas as silhuetas do Teatro Municipal e da Biblioteca Nacional. A rua mais 
próxima abaixo da ribanceira de onde está um homem é a Muratori.

Algum tempo depois, o local hospedaria os capuchinhos italianos, lá permanecendo até 1739. Sua peregrinação  só terminou — por algum tempo — quando tiveram casa própria, o Hospício dos Barbonos, na atual rua Evaristo da Veiga. A missa dos barbadinhos era bastante concorrida, e uma das devotas mais assíduas chamava-se Jacinta, filha de José Rodrigues Aires. Dotada de extremo fervor e acometida por visões religiosas, aspirava a uma vida de clausura e recolhimento dedicada a Deus.

Acontece que em suas idas às missas dos barbadinhos, Jacinta reparou em uma chácara abandonada em Matacavalos, a qual, cercada pela vegetação, parecia se adequar perfeitamente às suas idéias de recolhimento. Pediu a um tio que a comprasse, ele o fez, e para lá ela foi se encerrar levando uma imagem do Menino-Deus, acompanhada tempos depois por sua irmã Francisca. Vendendo suas jóias, Jacinta conseguiu o dinheiro para a construção de sua ermida, e, em 1743, era benzida a Ermida do Menino-Deus.

Com o passar do tempo, Jacinta e Francisca receberam a adesão de outras mulheres, já em número de doze quando foram visitadas pelo governador Gomes Freire que, comovido com as duras condições de vida assim como com sua dedicação, decidiu lhes construir um novo convento ao lado da Ermida do Desterro. Em 1751 as religiosas já puderam se mudar para a nova casa. Jacinta desejava que fosse praticada a regra de Santa Teresa, mas o assentimento das autoridades eclesiásticas para tal só viria muito depois, em 1780.

A Capela do Menino-Deus foi abandonada por muito tempo, sendo reconstruída em 1920 pelas carmelitas de Santa Teresa com o auxílio da Sociedade São Vicente de Paulo, e está presente até os dias atuais como um marco histórico de importância. A região da antiga Chácara da Bica foi loteada ao longo do tempo, abrindo-se no local ruas bastante conhecidas, como a Muratori e a Sílvio Romero, sempre com bastante movimento por constituir um dos principais acessos ao bairro de Santa Teresa. Mesmo com todas  essas mudanças, esse local sempre terá sua história associada às religiosas Jacinta e Francisca, que tudo começaram transformando a antiga Chácara da Bica em sua Ermida do Menino-Deus.

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